Metido a Facão sem Cabo
Hoje acordei meio louco e me levantei bem cedo, juntei graveto e uns toco pra iniciar o brasedo, contei na bruaca os “troco” pra ir gastar no mosquedo... Total, sábado é o dia de seguir velhas receitas, ir brincar com as gurias, ficar de cabeça feita, ouvir no rádio de “pia” Teixeirinha e o Gildo Freitas.
Fiz um mate topetudo de conquistar professora, com torresmo, guerrudo, uma rapadura moura, com um gole macanudo de Biotônico Fontoura. Aparei a barba com zelo, passei colônia de “bebê”, a “glostora” no cabelo e um “cashmere bouquet”, mastiguei uns caramelos pro bafo não ter cachê.
Me botei numa fatiota dessas de revista gringa, enfiei as pernas cambotas numa calça brim coringa e um suspensório macota por sobre a costela minga. Vesti pra me “paxoleá” e pra todo mundo “vê” uma camisa pitpoá de cor musgo degradê e um casaco angorá de veludo cotelê.
Calcei um sapato social, preto com sola amarela, vesti um carpim oriental até a meia canela, pus um lenço de tergal bem do lado da lapela. Pra fechar o figurino, peguei um colar e um anel, relógio de bolso fino de cor prata e ouro pastel e um chapéu “Borsalino” no estilo do Gardel.
Guardei no bolso interno um espelhinho de plástico, um pente desses modernos, um santinho eclesiástico e uns versos de caderno apresilhado num elástico. Mas bah... que modéstia à parte fiquei um galã da hora, era o Pedro Malasarte, virei manequim agora, pronto pra causar enfarte e não ser jogado fora.
Enchi de canha o cantil, pra mor de “abastecê”, deixei o litro e o funil na toalhinha de crochê e apertei bem o Bombril na antena da tv. Guardei a minha botica, com minâncora e mentol, mertiolate e arnica, cibalena e fontol emulsão scoth nanica, óleo de rícino e urinol.
Fechei as porta e janela, de cortinas tom “bermeio”, encaixei bem a tramela, dei de mão nos meus arreios e já tava na cancela meu pingo mascando o freio. Peguei a faca coqueiro e o trinta antissocial, papel colibri, isqueiro, palha, fumo especial e saí flor de faceiro pras bandas do faxinal.
Na boca da noite quente cheguei na venda do atalho, entrei na porta da frente, bati o pé no assoalho e saudei todos os presentes com um “buenas e me espalho”. Acabou-se o alarido e o carteado no pagode, as chinas ao pé do ouvido cochichavam num sacode e os maula nariz torcido só coçando os bigodes.
Cobiçado das mulheres entrei desfilando a farda, fui à copa dar um “conferes”, bombeando a retaguarda e co'a mão nos talheres pedi uma de “matar o guarda”. Assim que o gole degusto já vi duas sombras do lado, Pedro e Paulo, robustos, me pedindo os “guardado”, mas eu não nasci de susto e nunca fui assustado.
Me afastei do balcão e saquei os documentos, os dois rosnavam igual cão na hora do alimento, raspei a goela, cuspi o chão e se veio o benzimento. Um me agarrou o gorgomilo e o outro chutou os “garrão”, um pé de mais de cem kilo me afrouxou os “pulmão” e fez os meus dois mamilos ficarem presos no chão.
Me ergueram no fundilho, onde a espinha perde o nome, mi'a cueca virou espartilho e frouxou o que a gente come, duodeno, jejuno e íleo, um bilboquê nas mãos dos “home”. E não lembro mais de nada dessa peleja pagã, tô numa cela gradeada, mais fria que “pel” de rã, com a fuça toda inchada e os zóio um óculos “raybã”.
Tô esperando audiência com a alma toda doída já vou fazer penitência, largar os prazeres da vida, só quero voltar à querência para lamber as feridas. Bah... tô que é uma tetéia, virado só no bagaço, pro capa preta e a platéia vou dizer sem embaraço que sou fraco das ideia e “às veiz” não sei o que faço.