O Valor de um Sentimento
Num rancho, tosco e pequeno um taura era velado, num caixão improvisado, pobre como quem o usava, na volta ninguém chorava, pouca gente o conhecia, por andar de pago em pago sempre solto a la cria.
À penumbra de um candeeiro o defunto alumiava, perto dele, só ficava um cusco amigo e de lida, seu único par na vida e, deitado no baixeiro, parecia até dizer: Te levanta companheiro.
Num canto, ainda atirado, se enxergava um pelego, coisas que ele tinha apego e agora não tinham dono, pois o derradeiro sono não avisa se vai chegar nem permite para a gente alguma coisa levar.
Pra quanta gente ele havia prestado o seu serviço, mas que droga, nem por isso os patrões vieram o ver, preferiram esquecer pois o taura no caixão só tinha valor pra eles a custo de exploração.
Se um funeral já é triste por tudo representado, imaginem o de um coitado sem amigos ou parentes, o mesmo que um indigente: mãos postas, corpo espichado, e a única viva alma era o cusquito do lado. Mais tarde, a mando do dono, se chegaram pra fechar e foram o caixão levar, alguns peões da estância. Sem respeito ou importância cada um pegou de um lado e numa cova bem rasa o deixaram atirado.
O cusco, correndo em volta, como quem chora, uivava; a vezes então parava analisando a questão, e como quem diz: “Ermão” agora eu estou sozinho; deitou-se sobre o caixão choramingando baixinho.
Quem diz que bicho não pensa talvez não saiba o que diz se visse o que o infeliz cusquito, ali sentia, e a imensa agonia no animal existente pesou mais que nos peões que se diziam ser gente.
Levantou-se o cachorro foi para a volta da cova e, como dando uma prova de eterna amizade, cavou com muita vontade num esforço descomunal tapando o caixão do amigo num digno funeral.