Humilde
Humilde são os arreios Que aperto nestas manhãs. Junto ao eco dos tajãs Ao longe, no alvorecer. Humilde o meu viver Envolto na vastidão, Na beleza de um rincão Que teimo em permanecer.
Quando os galos se alvorotam Batendo asas, cantando, Me encontro verde, mateando... Matutando os afazeres. Tão simples, mas todos eles Têm a sua precisão Cada qual na sua função, Pois, tantos dependem deles.
Nesta rotina diária De todos que vivem aqui, A minha! desde guri, Sem nunca ter murmurado... Depois do mate lavado, Vou repontando as tambeiras, Pra no galpão da mangueira O leite puro ordenhado.
Mas deixo por meio ubre O que cabe a terneirada! Batem cola na mamada Muito mais do que saudade. Na sua necessidade De ali se alimentar, E como posso esgotar O que é deles de verdade?
Humilde aperto os recaus, No dia que vem clareando. Escuto um touro berrando No agosto que denuncia. Minuano em sinfonia... Alço a perna, e me embodoco, De poncho, ali me coloco Para pechar as invernias.
O zaino manso e sereno Conhece nossa rotina. A noite desce a cortina Adonde tudo clareia. Aranha que fez a teia Num pé de capim caninha, Na mulita que caminha Pra toca de pança cheia!
O passaredo se agita No mais lindo revoar, Me agrada o voejar, Fico só observando. Então, sigo velejando De laço preso nos tentos, Mas, alheio ao movimento Do gaderio levantando.
Ali, no mas, prosseguimos, Cada qual numa função. As rédeas firmes na mão, Chapéuzito bem tapeado! O ovelheiro no costado, Duvido alguém mais humilde, Que ao meu lado persiste Embora, sendo ralhado.
E o que falar deste zaino? Que para e fica cinchando! Se cutuquei esporeando Ele avança, e não se nega, Aguenta cada refrega Nessa humilde servidão... Lhe basta pasto por pão, E, ainda assim me carrega.
Quem é do campo entende, Este meu jeito de ver. Por certo, vai entender Este meu modo de olhar. De tudo aqui respeitar, Só um rural sabe bem, A importância que tem Cada um no seu lugar.
Palanque que aguenta quieto À manotaço e tirão, As pedras do mangueirão Escorando boi pesado. Um moerão bem cravado Firma a cerca, e faz fiador Pra trança do laçador, Atrás de algum abichado.
Aqui fora é bem assim... Desde que o sol se levanta. Onde a tardinha acalanta Cada momento vivido. Por todos absorvido, Guardados pela retina, Na providência divina Que Ele tem permitido.
De ter um naco de terra, Onde, tudo prevalece. E por mais que tudo impeçe Buscando velocidade, Desde a minha mocidade Observando, aprendi, E, graças a Deus sigo aqui... Vivendo nessa humildade!