Esses Homens
Eu conheci esses homens, cresci com eles...
Bombachas largas, botas rasgadas, muitas vezes, meio pé. Camisas espuídas na gola, lenços esfiapados. Palas de lã no inverno e seda, pro calorão. Sombreros de serviço de copa rasgada, costurada com tento fino. Aba larga bem tapeado, Nas festas, pelo rincão..
As mãos calosas, machucadas do serviço bruto... Laço que corre na palma, ou que foram bolhas, do machado... Já não há dor... quem sabe na alma. Os riscos da palha do milho, e os talhos do Santa Fé pra alguma quincha. Um dedo torto, de alguma volta do laço ou de um arame mal-quebrado.
Rostos queimados, e a pele do pescoço como escamas cor de cobre. Mas os olhos muito vivos, de ar chistoso e resposta pronta... Pra qualquer afronta ou anedota. Uma atitude presente, na firmeza de um aperto que vem bem antes da mão.
Eu sempre os observei... Por serem diferentes, notavam as coisas que outros não viam. Sabiam bem antes que aconteceria, muito antes que o fato se houvesse consumado.
Diziam, tranquilos, com facilidade se vaca ou se égua estivessem gestando... Na dança das nuvens e entrada do sol a seca ou a chuva de enchente de inverno.
Eu cresci com eles... Alguns de fala e mirada serena; Uns outros tormenta e descanso pras penas na canha e no fumo e peleia à facão.
Todos e invariavelmente do cavalo, do dia-à-dia na lida com a criação... Buscando as voltas de sanga e peraus, gritando até chegar no rodeio. Final de primavera, curando umbigo de terneiro, - ralhando a cachorrada - laçando de armadinha, no meio do gado. "Mulher e terneiro novo não se corre de atrás!"
Todas as voltas de campo muito bem conhecidas... "Faltou a vaquinha colorada, fia da caimbrenta véia... Deve tê ficado no capão do banhado."
Nos verões a esquila, galpão encerado, descascando ovelha e curando os cortados. O cancheiro que varre e ajunta o garreio, enquanto as tesouras conversam marcado no idioma dos ferros que falam também... Bombacha arremangada, pés no chão, sobre couros de vaca que o inverno levou. E depois o translúcido baile na bolsa, encaixando os velos na dança dos pés.
Eu vivi entre eles... Aprendi sobre o mundo e as voltas da lida. Andei com eles... trote manso na estrada, campeando um bolicho... Algum baile na costa, floreando as cordeonas e as chinas gavionas buscando promessas.
Em penca e carreira, cuidando algum pingo... Quebrando o corincho de algum outro cuera. A cancha de osso, a volta da tava, a lata que voa, pagando a parada quando a sorte escasseia e o culo aparece.
Eu fui um deles... Senti as mesmas alegrias, os mesmos contratempos. Também torci pra chuva, olhando as nuvens, pois ajudei a virar terra, pro milho recém-plantado.
Também campeei a rês perdida, caminhando pelos matos e atiçando cachorro nas curvas das sangas. Derrubei terneiro novo, agarrando da virilha e curei umbigo. Também esperei a volta da tava, na cancha de osso.
Eu sou um deles... Ainda encilho antes de amanhecer e cuido os campos e o pintar do carrapato. Conheço as sangas e grotas e as várzeas onde o gado engorda.
Também conheço o ponto da marmelada, em tacho de cobre e fogo de chão... Aprendi a lida de forno de barro, pra fazer pão e biscoitos. Eu sei passar uma tropa por uma porteira, coando aos poucos pra não quebrar os postes. E unir os bois de jugo ao carretão. "Rompe-ferro... Paredão... Oooooch boi..."
E, na distância de uma saudade, testemunhos...
Aqueles homens ainda falam através de nós... Poucos somos e menos sabemos... Mas, para sempre seremos, O que sobrou desse chão.
O nosso chão.