Toda Vez que Volto Lá
Toda vez que volto lá, não sou eu que encontro a casa, é ela que me reconhece. E o campo, quieto, me olha de volta, como quem diz: -demorou, mas eu sabia que tu vinhas de retorno!
O portão guarda o rangido, como se abrisse pra dentro da imensidade do tempo que ficou em algum lugar…
Há um resto de poeira antiga com cheiro de sol, de bicho e de um infância cumprida. A memória mora longe, por saber de toda história, se esconde no que ficou.
O Tarumã continua plantando sombras no chão, juntando gado de osso no rodeio das Oveiras. O galpão guarda o frio das madrugadas de junho. E o varal balança roupas que já não existem mais.
A infância olha pro sótão e se esconde arteira no mesmo lugar de sempre. Ouço passos que são meus, e risos de quem já fui correndo livre e descalço nas pedras em frente a casa.
E por um simples instante… sou eu guri… outra vez!
A porta se abre sem pressa sem assustar o silêncio. E percebo em meu olhar que o tempo não foi embora.
O fogão guarda as cinzas das lenhas e das conversas, na parede ainda há retratos que me olham vigilantes antes de eu ser quem eu era.
Casa de infância é lugar! De saudades que não voltam, Ali dentro…até o silêncio tem voz de pai e de mãe chamando pra tomar banho.
No fundo do pátio eu vejo: um guri de horizontes, de bombachas remendadas com os bolsos cheios de nada e o coração com mil planos.
Ele não pergunta nada, me olha… como quem sabe. E eu entendo seus medos… não fui eu que cresci tanto: -o mundo ficou menor!
Quem a gente foi, não parte, apenas espera um dia no tempo das circunstâncias de que a gente vai voltar.
E por um segundo somos, os dois, o mesmo espaço a mesma sede de mate o mesmo sonho de estrada.
Dai quando vou embora, levo menos do que trouxe. Porque lá… que tudo fica, não se carrega um papel…
Fica o pátio, fica o vento, e fica o guri correndo querendo fugir de mim. Mas levo coisas serenas, que não pesam pelo tempo: - um jeito mais leve e calmo que encontrei de existir.
Voltar não é regressar, é reconhecer que o tempo ainda vive por lá. E me acena todo o dia. com mais saudades que eu!
Toda vez que volto lá, nunca vai ser de visita. É um novo reencontro com o que ainda sou.
Porque há lugares da gente, que a gente não deixa nunca… Mesmo quando vai embora. Mesmo se o tempo nos leve pra mais distante de nós!