Arroubo
Perdi razão e sentido, Quando escutei tantas vozes, Falando, em vão, o teu nome. Senti, por vezes, ciúme, Convulso, em meio ao negrume, Desta aflição que consome.
Por tantas e tantas luas, Te carreguei junto ao peito, Para amainar a saudade, E emponchei madrugadas, Por vastas léguas de estradas, Tendo você por metade...
Cantei teu nome em milongas, Junto ao tição de espinilho, Entre o repouso das changas, Reacendendo os braseiros, Destes meus versos matreiros, Mansos qual água das sangas.
Tanto lamento arranchei, No corpo esguio da guitarra, Quando fugias de mim, Só ela entende meus medos, Que conto com a ponta dos dedos, Entre trastes de marfim.
Muito bebi das cacimbas, Que vertem águas salgadas, Pelo silêncio da dor, Quando, ao meu lado, te calas, Abrindo profundas valas, Nos abismos do torpor.
Tentei esconder teu nome, Das tantas línguas maldosas, Que se aproveitam de ti, Abusam da tua pureza, Enquanto afiam as presas, Pensando apenas em si.
Me sinto assim impotente, Quando meus dedos resvalam, Das tuas mãos de candura, Se perde minha palavra, Em sulcos que não se lavra, Na alma infértil e dura.
Resignei tantas vezes, Tua precoce partida, Por medo de me entregar, Temendo, assim, ser julgado, Ou até mal interpretado, Por tanto te desejar.
Quando de mim tu te apartas, Não há nada que me acalme, Ou preencha teu lugar. És a lua na crescente, A buscar a “cheia”, ausente, Pra poder me completar.
Se me faltas, te procuro, Pra talvez ser condenado, Pela insana nostalgia, De andar a esmo no mundo, Mas não vivo um segundo, Sem teus braços... POESIA.