Assombro nas Noites Frias
Um grito corta o silêncio numa noite sem luar. Ninguém se mexe ou comenta…
Nestas noites de invernias depois que o fogo se apaga, depois que as conversas mermam, uma aragem invade os ranchos. É como se preludiasse que a madrugada chegasse trazendo tantos mistérios que o índio, por mais valente, pega o caminho do catre e se assossega por lá.
Mas nestas noites geladas ninguém consegue dormir. Ninguém é louco o bastante pra andar perdido nas horas e, se encontrar lá por fora depois que o silêncio cai.
Se ouve um grito bem perto. Fez lembrar de uma feita onde um tal desprevenido rodou de um baio assustado. Quatro costelas quebradas! O índio, temendo estradas, nunca mais andou solito.
A verdade é que ninguém desrespeita a lua escura nas noites brabas de inverno. A moça, dona dos gritos, perdida nas madrugadas, caminha desesperada enlouquecendo os gaúchos que temem assombração, pois quase ninguém conhece a verdade dessa história da sua sina de louca.
Nos botecos, lá da vila, contam que esses gritos surgiram na mesma noite do roubo de uma menina. Eram sopros de agonia, eram ares de agouro. Cantou um vento dos diachos por sete noites escuras, até que o povo das vilas foi desistindo da espera e cancelando as procuras.
Ficaram rastros de dor no rosto magro da ausência. Ficou a porta fechada por onde, um dia, cantando, o sol embalou um anjo que a vida levou sem pena. Nunca mais brilhou a estrela naquela casa pequena.
Ninguém explica os detalhes, nem quando o fato se deu. O que contam são boatos, pois a verdade dos fatos cada um guarda pra si. Dizem que foi judiaria, coisas de acerto de contas. Nada se sabe do maula que se sumiu num galope levando junto a guria.
Há quem diga: no povoado não se dorme sossegado se o assunto vem à tona. Mães na volta das filhas e homens ficam de guarda, pois nestas noites de inverno, dos filhos, ninguém se aparta.
Parece que a tal guria, agora, já moça feita, vem buscar outra menina pra lhe fazer companhia nos dias de solidão.
Com a tal assombração rondando as portas dos ranchos, o medo paira no ar. E a moça segue gritando nos cafundós destes campos que congelam madrugadas de quem habita o lugar.