Crucificado
Hoje eu fui tomado por uma imensa vontade de livrar-me, na verdade, de tudo o que me atormenta…
Venho entregar-me a Ti, Senhor, que a tudo cura… Despindo-me das armas, desfaço-me de tudo. Entrego-me inteiro!
Aos Teus pés, Senhor, dispo-me dos rótulos e da sede que consome… Liberto-me da fome. Corrói-me o corpo a seiva ácida que brota das entranhas do meu ser. Este grito que queima e teima em ser mais forte que eu, hoje, encontrou as porteiras abertas.
Quantos sorrisos dei mascarando uma verdade escondida pelas sombras das canhadas… Quantos olhares deitei rasgando, cavando a terra com ganas de touro brabo em disputa pelo posto de “senhor dos pastos”.
Cansei de dar o couro pro abraço de uma marca que crava os dentes e fere devorando, a ferro em brasa, o fulgor da alma que o habita e que estanca o sangue da ferida bebendo as gotas salobras derramadas sobre a pele.
Faço-me tempestade, agora. Imploro a Ti, que me escutes! Não mais deitarei ao lodo. Eis-me aqui, Senhor, toma-me todo!
Eu calei minhas dores, minhas chagas sangrentas. Eu calei meu rio de lágrimas… Eu vi os ciclos das luas se deitando sobre a terra amarelando horizontes. Não brindei taças de vidro, nas noites de garfo e faca, para o prazer dos amantes.
Pisei a terra com calos endurecidos de estradas… Cuspiram na minha cara falsos santos de madeira que não sabiam rezar. Decifrei o som das águas caídas desses telhados que cobrem tantas cabeças vazias de pensamentos e sem sorrisos no olhar.
Senti o peito doendo quando entendi que quem muda, não é o mundo, sou eu. Vesti as roupas surradas e meu suor me ungiu.
Hoje eu fui tomado por uma imensa vontade de livrar-me, na verdade, de tudo o que me atormenta…
De braços abertos, revelo-me a Ti. Mostro-me, doendo… Meu grito, desesperado, suplica Teu nome. A solidão me consome…
O Amor é Tua lei. Das coisas que sei resta-me contemplar-Te, Cristo morto que comunga dessa entrega do alto das minhas paredes.
Liberta-me! Eis-me aqui, Senhor! Braços abertos… Perdoai os meus pecados! Diante da Tua imagem refletida em minha cruz, me entrego, Cristo Jesus!
Crucificado…!