Destas Vozes que me Falam
Quando a tarde fecha os olhos se entregando ao breu, é nesta hora que eu comungo destas vozes que me falam.
A tropa recolhida e a lida no fim. Então, me ponho a escutar estas vozes do campo, do rancho, dos trastes, dos bichos, do vento… São pedidos, lamentos e até confissões.
A cambona vai chiando… Bem na verdade, falando comigo. Chorando baixinho, contando que as brasas nem sempre aquecem de fato. Então, ela chia pedindo mais força pro fogo. O fogo responde, quando estala. E vão assim nessa prosa empolgada que até o cusco acorda de susto!
Entre um cochilo e outro, dá uma coçada nas pulgas que reclamam o amargo do sangue. Ele rosna, explica que na vida de cão nem tudo é doce e eles se entendem e, se aconchegam no mais…
A cuia ronca avisando que já suguei a última gota da sua seiva e também tem sede. Pede que abasteça suas lembranças e com a erva inchada de vaidade, revela que não entende por que os homens a apertam nas mãos…
É a bomba quem transporta o que mais desejam. E dali nasce o beijo que queima os lábios e amarga a boca.
Olho pr’um canto e vejo o chapéu que, a pouco, estava pensando comigo! Agora, tristonho, se vê rejeitado, abandonado ali no prego. Olho pra ele que, sem dizer nada, me entende… Afinal, nossa prosa se dá só pelo pensamento, pois ele é o primeiro a engolir minhas ideias…
Atiço as brasas cutucando uma magricela que solta faísca, não gosta da brincadeira… Se ela é ligeira, eu sou mais ainda! Um vivente se achega pra perto do fogo, traz o violão ao peito como quem carrega uma linda morena. Eu sei que ele fala co’as cordas. Desse namoro nascem milongas que povoam as noites no galpão.
Ninguém arrisca uma prosa… De um canto de olho bombeio esses rostos sombrios e distantes… Ninguém conta causos, mas todos escutam das vozes que falam, pensam ser coisa de doido e disfarçam…
Escuto, respondo, entendo as vozes do campo, do rancho, dos trastes, dos bichos, do vento… Sei das vontades das labaredas, conheço os sinais que o vento vem trazer pelos cantos, pelas quinchas, pelas frestas do rancho.
O minuano que uiva feito lobo doído de andar apartado, vem trazendo notícias de outras paragens. Conta das novidades que andam cercando a gauchada de outras plagas. Tem gente esquecendo dos campos, tem gente abandonando o pingo, tem gente até não mais mateando nos fins de tarde.
O vento lamenta trazer notícia ruim. Queria ser como a primavera florida e tão perfumada que a gente, depois da lida, corre pra sanga e se banha nas águas que riem dos corpos, que saltam e se mostram sem medo, revelados aos olhos dos outros iguais.
A primavera é prenda bonita que se enfeita pra esperar o moço que chega um pouco antes do final do ano. O chamam: Verão… mas, verão mesmo? Eu prefiro escutar… Escuto as folhas caindo dos galhos. Enfim, estão livres! O barulho que fazem quando pisadas no chão, é mais uma risada que um choro. Agora, misturadas à terra quente, são adubo e berço pras novas sementes…
Um galo canta fora de hora. Dizem que é moça das casas indo embora com um sorro qualquer. Bem sei que o pobre do bicho tá mesmo é alimentando a crença co’a goela. Garantindo não ir pra panela de ferro e virar alimento pros homens que ainda acreditam que moças escolhem dia e hora pra se perder nas estradas.
Eu cá, me aquecendo e me rindo… Tem gente que pensa que bicho não fala, que os trastes não contam histórias das lidas e lutas dos nossos antepassados. Escutam somente as vozes dos homens, que andam sobre a terra, sobre o lombo dos cavalos que carregam muitas vozes e se calam. Que esses homens fiquem lá com seus pensares… Então, que me deixem quieto pra que eu possa comungar destas vozes que me falam.