Estância da Alegria
Havia na Estância do Fundão um piazito sonhador. Nascido em berço de ouro, criado com muito zelo, filho da dona Cigarra com o fazendeiro Doutor.
Cantando versos pra lua ia ganhando as estrelas. Não conhecia fronteiras em seus voos rotineiros que varavam madrugadas. Sem ter hora pra voltar ia compondo canções, pois fizera parceria numa nova melodia com o tal do Sabiá.
E lá se ia o piazito tocando seu violão… Cantando pra bicharada: pro bezerro, pras galinhas, pro porco, até pras formiguinhas!
Esse moço cantador em seu cantar milongueiro pouco olhava pra magrela, linda prendinha morena que caminhava ligeiro!
A tal mocita tão simples que sempre andava correndo, não tinha tempo pras festas e cantigas dos banhados, pra sinfonia dos grilos pro alarido medonho que a bicharada fazia, nas cascatas de alegria, nos verões enluarados.
A formiguinha prendada ficava toda perdida, quando o mocito Cigarra só pra rir da magricela, barrava com um graveto o caminho à frente dela. Ela sempre cabisbaixa ficava tonta, coitada, e não conseguia ver a trilha da formigada.
Esse piá, tão mimado, cantava, sorria e se divertia com o trabalho sempre igual daquela gente esquisita. Se bandeavam lá pros fundos se sumindo pátio afora, adentrando num buraco que dava pro fim do mundo!
E os dias quentes do ano, com sol bonito no céu, inspiravam nosso piá que, agora, já andava taludo sempre ganhando de tudo dos pais que ele tanto amava.
Ai que dó desse piá! Não entendeu quando a morte levou os pais num repente! Até fez música nova! Cantou uma triste canção, pois não sabia chorar. Porém, de nada adiantou cantar e tocar violão, ficou sozinho e perdido na Estância do Fundão.
A tristeza ainda ficou maior… Os dias foram pintados de uma cor esquisita. Um cinza escuro, sem vida. Era o inverno repontando a tropa na estância do seu Cigarra!
Ah! Mocito cantador! Já sem encontrar motivos pra cantar qualquer canção, tremia de fome e frio… e, nem reparou na mocinha que debaixo da folhinha daquela grande figueira, olhava toda faceira pro cantor e seu violão.
Sorrindo, cheia de graça, chamou o mocito triste que estava todo encolhido. E, pela primeira vez, ele a olhava enfeitada com uma sainha rodada, até com flor no cabelo!
“Por que choras gauchinho? Hoje me ponho bonita! Troquei o vestido de chita por minha saia rendada. Hoje tem festa em meu rancho, não vais chegar de carancho! Entre, traga o violão! Cante a mais bela canção como fazias nas tardes quentes, quando os dias da gente eram só trabalho e cansaço”.
O moço, olhando a prendinha toda enfeitada a sorrir, esqueceu-se da tristeza. Ergueu num entono a cabeça, estufou o peito pra frente e cantou pra sua amiga.
Como era linda a Formiga! E o Cigarra se encantou… Fez o pedido no mesmo dia. Se a formiga disse o “sim”? Sim! E a Estância do Fundão, agora, é a Estância da Alegria!