Fuga
Sinto que é chegada a hora. Canto em versos minha voz que guardei nas grutas escuras e, agora, deixo-a fugir sem pena e sem medo… é chegada a hora.
Dispo-me dos ventos de agouro. Visto-me dos berros e uivos dos que campearam pastos pra matar a fome de safras e colheitas fartas que quase se perderam na seca.
Entrego-me às mãos vazias que se estendem a pedir ou dar clemência. A mostrar os calos das enxadas que reviraram a terra, buscando raízes enterradas e obscuras no amargo das fomes escondidas.
Rasgo-me na falta da seiva que envernizou os caules de braços abertos a orar, sem saber que a reza não garantia o fruto por saber florida a estação das cores.
Volto-me pro cerne… Curando a ferida viva estanco a lágrima que verte, escarlate e úmida, na face murcha e muda das figueiras tristes de copadas magras.
Despeço-me dos verdes e dos capões antigos que muito abrigaram fugas de calçados parcos. E garantiram fogo pros fogões gulosos que queimaram noites e fritaram dias, pra que a madrugada descansasse, muda, as barrigas cheias.
Perdoo-me dos anos… Enterro os restos dos verões em festa onde dancei sorrindo com a bem amada. Onde plantei sementes numa terra virgem que gerou meus filhos e os fez escravos dessa nova crença de buscar estradas.
Prometo-me distâncias… Esperei contrito e, agora, vejo que o que mais queria, azedou-se ao leite que fundido em queijo foi salgar o soro que entreguei aos porcos.
Reviro-me na cela… Nesta prisão de nomes que registram posses e carimbam dotes. Sou mais um rebelde! Não saí aos meus, pois neguei galões aos que voltavam firmes das revoltas mortas de um lutar em vão.
É chegada a hora… Antes que se faça tarde, pegarei o rumo dessa estrada longa e serei poeira numa nuvem densa. Chegarei mais cedo! E serei mais um a cantar poesia num céu enfeitado de poetas loucos!