No Leito dos Cativos (Cemitério de Negros)
Rasgaram o couro da terra num tempo, hoje perdido, onde embaçam os vidros das janelas das retinas, escondidas por cortinas do medo, dito ”vergonha”, atrocidades medonhas encobertas por neblina.
Sangraram as veias mornas jorrando a dor, sem perdão, de um pai, por devoção, que confiava o rebento aos olhos do próprio vento, sem enxergar diferença na raça dura da crença que dorme livre ao relento.
Derrubaram os moirões das cercas enegrecidas. Enquanto ardiam feridas disfarçadas nos potreiros, brincavam, o dia inteiro, nas idas das carreteadas que voltavam carregadas pela soma do dinheiro.
A ponta de uma picana achou o peito inocente, acordando uma enchente que cobriu a paz dos pastos. Inundou todos os rastros dos pés da dita igualdade revelando, na verdade, a diferença do lastro.
Identificado o tal negro que ferira em brincadeira, numa morte derradeira, o piazito do compadre, deu-se o fato sem alarde e o patrão mandou de pronto: “Deem um fim nesse monstro antes que seja tarde!”
A vida nova roubada diante de quem mandava… A vida negra, escrava, pouco valor lhe cabia. Anuviou-se esse dia, sentenciado por degola, com ausências de esmola que a raça não conhecia.
Na terra fora plantado sem referências de nome. Eis que morria um homem pra que houvesse justiça. Garantia-se a premissa de que seria o exemplo pros negros, daquele tempo, respeitarem a remissa.
Voltava, o pai, das andanças e chorava o filho ausente. Esse não era o presente que pretendia ganhar. Só flores naquele altar que se erguia no peito de quem honrava o direito de quem não pôde explicar.
Repudiou a maldade de quem deu fim no escravo. Não fora, o filho, um alvo! Brincavam sem intenção! Ao ferir um coirmão que cuidava como seu, o podre diacho morreu sem receber o perdão.
A terra, toda encarnada, viu mais feridas rompendo e a noite doeu chovendo pra lavar tanta sujeira que escorria, ligeira, pedindo o fim da matança clamando por esperança na súplica derradeira.
Quando o pai também se foi para o encontro do filho, ardeu como espinilho a chama do seu pedido: “Quero que seja cumprido, me coloquem pra deitar ali, no mesmo lugar, onde dormem os cativos!”