O Peso das Dobradiças
Dobradiça enferrujada esconde muito da história de vidas que se perderam pelos grilhões da memória. Cada passo um sentimento, no rastro impresso no chão, que riscou as tábuas cruas num tempo de solidão. ……………………………….
Casa grande, abandonada, com cicatrizes do tempo, com goteiras que encharcam a timidez de um assoalho que pouco a pouco fenece.
Uma coruja faz ronda no ventre dessa tapera que, um dia, já teve festa e risos por entre as frestas nas noites de longos bailes.
As janelas e as portas foram perdendo a coragem de resguardar os segredos de quem habitou um lar. Agora, pendem cansadas…
Os armários e as louças caíram e se quebraram… Restou a caneca antiga, amarela e amassada, com medo de assombração.
Os quadros e as molduras se entortaram nas paredes, carcomidos pelas traças que traçam muitos caminhos que não saem do lugar…
De vez em quando a vitrola, arranhando um disco velho, ensaia a mesma canção que o vento tão insistente entoa na imensidão…
Os passarinhos gorjeiam, quando escutam os passos de quem cruza na estrada, junto da grande porteira que convida para entrar.
A cama perdeu o sono depois que mil pesadelos se deitaram no colchão de palhas, todas rasgadas num tempo que se faz longe…
A “tuia”, berço dos grãos, rumina os brotos que chegam contradizendo a natureza que oferece o ventre úmido pra gestação das sementes.
O candelabro, na mesa, já não ostenta lembranças, pois perdeu sua memória a pouco mais de um ano quando o inverno chegou.
Todo ano a mesma cena… Todo o inverno, uma baixa. As chuvas tão traiçoeiras, de mãos dadas coas goteiras vão apagando a história.
A pia já não faz nada, cansou de lavar as facas que cortaram muita carne pra saciar muitas fomes que hoje ninguém mais tem.
Lá fora, um poço d’água secou de tanta espera em matar alguma sede, mesmo que fosse de luta, pelos direitos de herança…
Ninguém pra buscar as vozes, que se perderam nas curvas da estrada e do próprio rio, que chora, sem despedidas, sem um aceno de adeus. ……………………………….
O peso das dobradiças esconde muitas lembranças que ninguém irá contar… A casa virou tapera ali bem rente da estrada e não existe mais nada além de um triste abandono naquele triste lugar!