O Sonho do Bem-me-quer
A inocência brincava despetalando uma flor na ânsia de descobrir os segredos do amor.
A verdade desses campos, chovendo gotas ao vento, algumas vezes, mentia. Murchavam as esperanças da “inocência”, de tranças, que sonhava nas esperas. Com olhos esbugalhados, coração descompassado na ilusão que ninguém via.
Então, parou de brincar. Bem-me-quer, malmequer, nunca mais ela falou. Nunca mais despetalou um bem querer que se quer. Ficaram apenas lembranças guardadas do tempo bom.
Ficaram flores no campo. O cheiro, o viço e a cor. Ficou a alma espalhada em cada pétala arrancada do bem-me-quer do amor. Ficou o pólen pro mel, as nuvens brancas pro céu, as asas soltas pro ar e o seu retrato pra flor.
Também já fui “inocência”... Acreditei no meu sonho de um dia ser escolhida entre as flores lá do campo, porém, não foi desse jeito. A mão dura dos açoites veio acordar-me pra vida. O tempo mudou os planos e o sonho foi um engano doendo dentro do peito.
No meu silente retiro, desgarrada dos retornos, escapam suspiros tolos de um vazio que inventei. Junto à janela cansada, à sombra de uma figueira, eu vivo feito o “outono” pras esperas desprendidas, pois ausentei-me da vida por medo de um abandono.
Cada palavra que colho na plantação das esperas, é alimento pra alma que tem fome de poesia. Tem sede de olhar a lua. Tem cheiro de mato antigo. Tem soluços, tem abrigo... Tem na lágrima, confessa, o silêncio e a promessa de quem precisa sonhar.
Bem lá no fundo da alma, sinto que ainda dá tempo. Não posso fingir o fim, pois guardo dentro de mim o pulsar de uma esperança. Quero ser essa criança brincando de bem-me-quer... Mesmo em corpo de mulher visto as asas da magia e volto junto c’os ventos.
Frente à porta do passado, ruminando os pensamentos, vejo os rastros que deixei e que posso recriar. Contar uma nova história em páginas que eu escrevo. Quem sabe, vencendo o medo, pegue carona na infância e voltando a ser criança eu reaprenda a sonhar!