Pros Meus Sonhos Vazios
Hoje, bem cedo, fiz minha mala e voltei. Cheguei na estação do tempo que há muito esperava tranquila entre o passado e o talvez… Embarquei sem pressa, deixando tudo pra trás, pois esta viagem de volta fora adiada demais.
O verde vivo dos campos, foi logo se desbotando. Uma criança me olhando, sentada à minha frente, muita coisa perguntava, sem nada dizer pra mim… Busquei de pronto a janela. A vida corria lá fora revelando a minha história!
Mostrava o rio de águas claras onde pesquei lambaris. A fumaça pelos ares, do meu trenzinho de lata, que carregava com ela meus brinquedos de piá. Vi a mãe que eu tanto amava, me chamando para o banho, antes de pôr o jantar.
Vi tudo passar correndo… Vi meu cusco de olhar triste, tal o dia em que parti. Vi galinhas no terreiro, ciscando naquela sina de procurar algo perdido, sempre pertinho de si. Por que eu fui buscar longe, se o meu lugar era ali?
O trem corria depressa. A janela me traindo, já não mostrava lá fora, enquanto a chuva de manso me pegava distraído, escorrendo pelo vidro, deslizava no meu rosto.
Senti culpa, remorsos… Senti gosto de saudade… Chorar não adiantava! A criança me olhava. Da sua boca serrada, saiam tantas palavras que eu não queria escutar.
Falou da terra macia que, um dia, pisei descalço. Falou dos banhos de sanga, das artes da gurizada. Falou da pipa de água, que eu enchia assoviando. Falou dos ventos soprando, sob a quincha dos galpões.
Falou também das caçadas. Das tardes de mato a dentro, saboreando pitangas. Eu me via homem feito! A mãe não podia ralhar e o pai, jamais saberia que eu subia tão alto naqueles galhos benditos, que me faziam voar.
Assim, eu peguei carona nas asas desses recuerdos… De repente me dei conta que a criança adormecera. Tinha um ar angelical. E despertava sorrindo, bem diferente de outrora, já não mais inquisidora.
A noite vinha a galope. Pirilampos em romaria, fazendo festa pra lua que despontava tão grande. Clara, linda, nua como há muito eu já não via…
Era a estação do passado. Criei coragem, desci. E o trem seguiu apitando. Ficavam pra trás, nós dois: A criança sem um nome… E eu, “um velho”… que, um dia, partiu pra longe na ilusão que engana a gente, que pensa que é preciso ir-se embora ainda jovem, para aprender a ser homem.
Mas eu estava de volta. Nas mãos, uns pilas trocados pras compras da minha mãe. Com os meus olhos confusos, me olhando de calças curtas, saí correndo pra venda onde eu comprava os avios.
De chinelinhos de dedo voltei ligeiro pra casa. Eu era a criança, com asas, que foi me buscar sozinha, num futuro tão distante, cheio de sonhos, vazios!