Velhas Taperas
Abro a porteira dos olhos prum sonho bom que vivi...
Guardado em meio ao silêncio dos que resistem à estrada, um vulto gris soberano guarda mistérios na alma.
Entre a candura da carne e o quadro de uma tapera, com sorrisos de janelas porta aberta, escancarada, com cinco degraus na escada apontando a direção, a estranheza da casa, pois mais parecia um galpão.
Do mundo em que eu viera pouco restara pra mim. A estrada seguia livre, e aquele lugar perdido que eu descobria escondido em meio ao mato fechado, me engolia nas urgências das necessidades povoeiras, que maneiam tanta gente pra sugar os poucos cobres que se escasseiam nos dias, que vão se deitar silentes co’s sonhos que a gente tem.
Não conhecia ninguém. O manto negro da noite deitou e eu despertei. Lá fora sombras bailavam, muitas vozes conversavam e as paredes com frestas revelavam uma festa com o cochicho dos pombos aninhados no porão. Ao lado, na estrebaria, mugidos quase em sussurro segredavam tanta coisa que eu ainda não sabia.
O aroma do café preto, encobria o cheiro forte que vinha do movimento de quem dividia a casa, e amanhecia inocente disfarçando envolvimento com os segredos da noite. Cada um com seu mister... O sol teimando em aparecer, e o radinho de pilha cantando a mesma canção roncando junto co’a cuia.
O pai, e seus pensamentos... A mãe por certo entendia que ali, naquele galpão, os dias seriam poucos. A casa nova viria trazendo a tal alegria pra enfeitar o seu olhar. Enquanto esse lar não vinha meu galpão guardava história. Conhecia todos meus medos, segredava meus segredos e toda a noite voltava a revelar-se pra mim.
Rangidos fortes dos ventos, fantasmas de muito longe, todos trazendo nas malas os fardos de tantas penas. Todos com seus dilemas... Fui aprendendo a ouvir. Suava frio, eu confesso... Preferia os ventos leves que só traziam canções, das fadas de sonhos bons, dessas de contos de amor. Mas tudo ali era surpresa. Se o pão era escasso na mesa o amor sobrava no prato.
Sem registros nos retratos... Tua alma tinha nos braços o calor que eu, sem saber, precisei pra conhecer as tantas noites geladas, que trincavam madrugadas endurecendo a cantiga das cigarras que partiam pra só voltar no verão. Meu olhar não conhecia dessa vida em movimento que muda nas estações, que tira a cor e floresce, que esfria e depois aquece, que clareia a noite escura e escurece o sol dos dias.
Obedeci os mandados. Saía pisando geada e voltava pela estrada cantando igual sabiá. A escola modela o homem, vai aparando as arestas, e à noite, por entre as frestas, meu mundo era só meu. Ninguém nunca conheceu das histórias que eu vivi.
Fim de semana chegava com lidas pouco comuns: fazer a própria vassoura; varrer o terreiro grande; trazer água da vertente; buscar a lenha no mato; comer pitanga e goiaba; e sonhar com um futuro que traria tantos muros embretando a liberdade que nunca mais eu veria.
E o tempo passou pra mim... A mãe ganhou casa nova, e a estrada fez nuvem alta apagando o meu adeus. E todos os sonhos meus já não ouviam sussurros, e os mistérios da noite não tinham mais o encanto da espera em alvoroço de um mundo de assombração.
Restou somente a saudade do vulto gris soberano deitado em leito de adeus. Mas quando se abrem sulcos nos campos largos da alma, não há tempo que derrube o corpo firme de um homem. Não há mais vida em teu ventre. Nada mais é como era! No galpão que foi meu lar, mistérios falam nas sombras, e alguém espia assombrado pelas frestas do passado que habitam velhas taperas!