Campinho
Duas quadras da entrada, logo atrás da escola, se olhar em dia claro tem alguém jogando bola. Algum petiço grameando ou encurtando caminho, num pedacito de terra que batizaram “Campinho”.
Costumes de campo baixo, com lagoão e poça d’água; se algum outono chuvoso for desaguar suas mágoas. Borda de grama-forquilha, crescendo com o annoni e trevo que nasce no inverno, floresce, mas depois some.
Várzea no meio da vila, com barro por onde ande, carreteiras destapadas, rastros de estância grande. Não tinha nenhum arame, nem divisas ou porteiras: querência de qualquer um, sem potreiro nem mangueira.
Estacas viram goleiras depois de soltar os pingos. Sorrisos — era sol posto numa tarde de domingo. Sonhos atados à soga se vestiam de esperança, transformando em alegria duas quadras de lembranças.
Guardou silêncios na terra sempre que foi invernada; tambeiras campiando pasto, gado manso de estrada. Cavalos de qualquer canto, que a fome faz à procura, mal podendo com o cabresto e o peso das ferraduras.
Ali firmou a sentença pra mais bela da tropilha: uma gateada cabana, feita pra qualquer encilha; bem desapegada das patas e o fio do lombo parelho, mas se tornou aporreada depois de provar o relho.
Beijou o véu do sereno com pala branco por cima, flecos de cola cortada, penachos de toso e crina. Setembro, que chega forte, voltado em flor e capricho, deixando nas alpargatas pega-pega e carrapicho.
Campinho… feições de pago, ruas de um lado a outro. A escola sempre parava quando se puxava potro. Olhos atentos à janela pra cada fase da doma, ensinamentos de campo que não cabem num diploma.
Duas quadras de infância nos olhos de ver o mundo; tempo que cruza depressa, pressa que muda em segundos. Torneios de vaca parada, de juntar a vizinhança, todos por um só motivo: o riso claro das crianças.
Tinha segredos de terra e casos mal resolvidos, versos parados na metade, romances quase escondidos. Penumbra de campo grande, sol que aquece a cidade; verdades vistas no escuro não fogem na claridade.
Ah!... pedacito de terra, e de tantos iguais a mim... Tudo que um dia começa uma hora chega no fim. Pavimentaram a metade, a outra parte ainda não; mal se vê algum cavalo ou criança de pé no chão.
Segue o petiço rosilho, feinho que é um pecado. Bueno de faito e carroça, se mantém bem no pelado. Vai grameando pela volta do que um dia foi querência, talvez por algum costume ou sinal de resistência.
Algumas coisas se apagam, outras esperam começo; algumas ficam na memória, outras só mudam o endereço. O Campinho segue o mesmo, pra mim, do mesmo jeito! Duas quadras de saudade do lado esquerdo do peito.