Da Mesma Lua
Sétimo dia do quarto minguante, julho de 21. Na Picada dos Bastos, junto à Cabeceira do Raimundo. Foi assim que vim ao mundo, nesta data e local.
Lua parideira de potro, destes que atoram uma rês no meio, apartam os abichados e trazem um touro cinchado só no comando do freio.
Não conhecem mango ou esporas, são atentos e ligeiros, são de toda confiança; se precisar, são ventania... do contrário, são bonança. ... _ Será macho desta vez!
Chegou o pai dizendo, sobre a nova prenhez da zaina dos seus arreios. Mandou chamar a peonada e disse, todo orgulhoso:
_ A zaina, desde já, é da cocheira pro piquete, e do piquete pra cocheira. Tá prenha de "potro macho". Já avisem o Teixeira, que ele sabe como é, vem mais um grande campeão de sangue Tupambaé.
Aquela noite foi de festa. Carne gorda e cantoria, trago largo e alegria do galpão... até as casas. Conta a mãe que foi assim, e assim foi que "assucedeu": naquela noite de festa, o potro ganhava um ginete, e o ginete era eu.
E vinha a Nova, a Quarto Crescente, vinha a Cheia e a Minguante, e o resultado dos amantes o vestido avultava. A zaina também caminhava já de modo diferente, pastejava sempre à sombra, olhando os cueros ao vento, talvez imaginando a liberdade nas crinas do seu rebento.
O inverno chegou cedo, rigoroso como deve. As "muntas" de agosto logo iriam despejar. A mãe, por precaução, mandou trazer a parteira. Prudência nunca é demais, e um parto é um regalo pra nossa gente da fronteira.
Os raios lambiam o céu, e o chão tremia em seguida, prenunciando que era dia de o campo remoçar. A zaina já deitara à espera da natureza.
_ Será hoje, com certeza! Chegou o pai dizendo.
A parteira, que embalou tantas vidas, tantos choros acolheu, tanta mãezinha acalentou no primeiro filho que vinha, iria receber outro potro... e esse potro era eu.
A chuva, sem cerimônia, chegou, trazendo a noite, lavando o sangue da parição. E entre um raio e um trovão, no silêncio que precede o tremor, um choro e um relincho, duas mães lambendo a cria: a definição mais justa do amor.
O beiral da casa antiga foi afinando seu veio. O vento mudou de lado e, como em um mundo encantado, o céu salpicou de estrelas, e a lua veio espiar. São os mistérios da natureza que ninguém pode explicar.
A zaina trouxe a cria bem de frente ao galpão, como se fizesse questão de apresentar à peonada. O pai me tomou nos braços e, ao passo, chegou na zaina. Nossos olhos se encontraram: eu e o potro, a mesma respiração, o mesmo sentimento, da mesma chuva, do mesmo campo, do mesmo vento. Lambidos na mesma noite, E fomos Dom Quixote e Rocinante por estes campos da fronteira. Conta a mãe que foi assim... E até hoje é.
Batizei de Mesma Lua meu cavalo da infância, meu irmão pra toda a vida, de sangue Tupambaé.