Getúlio
Ao longe ouvia-se os trovões daquela estância. Corriam boatos, pela vila, De que o casarão era assombrado.
Nas gurias, dava arrepios E pros guris, era desafio. Mas não era de culpar as más línguas: O pátio de gramas altas e a casa de tinta descascada Não eram muito convidativos.
O casarão permanecia fechado, Por mais que os bêbados de rua dissessem Que abriam-se as janelas depois da meia noite. Ouvia-se só o silêncio ensurdecedor nos dias de sol, Ainda que os vizinhos próximos contassem que Em dia de temporal, ouviam-se gritos vindos da antiga senzala.
Getúlio, moleque encrenqueiro, Assim que chegou na vila foi instigado pela estória. Elaborou seu plano e contou os dias, Pra que na próxima lua cheia invadisse o tal casarão. E os amigos do colégio diziam que ele era doido, As gurias da cidade ficaram impressionadas com a ousadia. Nem mesmo o coronel da região ficou sem saber, A notícia corria mais que o baio campeão do mês passado.
Chegou então, a noite esperada. As velhinhas da cidade rezaram preces pelo guri Antes de apagar a vela naquela noite. O escuro era denso, e em seus passos confiantes Getúlio desbravou a cidade até a estância abandonada.
No outro dia, de manhã, Getulio contou pra cidade de velha bruxa Que morava lá. O terror espalhou-se pela vizinhança, E mesmo os guris que planejavam seguir Getulio Desistiram por medo da velha má. Os estancieiros da região planejaram botar fogo no casarão, Mas Getúlio disse que resolveria sozinho a situação.
Nas semanas seguintes, Getúlio esteve sempre Distante, Divagando, no mundo da lua. O professor preocupou-se, As notas caíram, Getulio deixou de cortejar a guria dos cachos louros.
Continuava suas visitas noturnas ao casarão. A vila estremeceu. O povo ficou preocupado quando o padre disse que precisavam exorcizar Getúlio. Os homens da cidade começaram a procura-lo, Sem frutos, porém. A mãe do guri, que era sozinha, chorava e jurava Que não via o filho já fazia um mês.
O coronel convocou uma reunião, E decidiram que então, na próxima lua cheia, Reuniriam os homens corajosos da cidade e que tinham armas, Pra acertar o Getúlio e salvar a vila daquele mal.
Naquela noite, o céu chorou. Quando o homem encontrou Getúlio sentado na sala escura do casarão. Com medo do dito “demônio”, Atirou no guri.
Amanhecia, depois, um dia triste, O sangue do jovem esvaindo por sobre os papéis de um antigo manuscrito que encontrara no casarão, E o quadro de uma jovem escrava, De belos cabelos crespos e lábios volumosos, Que há muito já tinha partido, Permanecia encarando Getúlio na cena do crime.
Num tempo onde coronéis matavam os guris sonhadores, Morrer sob zelo da guria de seus olhos era uma honra, para Getúlio.