Duas Estrelas
Eu tive duas estrelas desde quando era mais moço. Se perdiam delas mesmas, e de mim, sem muito esforço. Seus andares desparelhos iam refletir no espelho da água mansa do poço.
Já me foram mais mimosas, me tiveram mais carinho… Eram como ter as Rosas sem tocar nenhum Espinho! Passam ventos, passam luas, e o querer maior das duas sempre apura o meu caminho.
Mesmo santas, já pecaram. Mesmo quietas, se mexiam. Mesmo cegas já cortaram o espaço em que estendiam! Tinham cismas de perigo, viajando junto comigo - rodando - enquanto existiam.
Iguais as irmãs cadentes caindo do céu de alguém, estas estrelas (sementes) beijaram a terra também. Uma ficou pela estrada, e a outra deixei guardada nos rastros que eu quero bem.
Quando alguma delas parte, não demora e vem de volta! Parecem ser a metade de cada lado da escolta… Quando alguma delas fica, pelo fio se justifica, agarra, e nunca mais solta!
Eu tive duas estrelas, já mais velho e sonhador. Quase não pude contê-las, perdi-me no brilho e na cor… Eu tive duas estrelas. Pequenas quando ia vê-las, gigantes pra’o meu amor.
Com pontas, como as de antes, talvez ainda mais afiadas! Não cortavam céus distantes mas me tinham nas estradas… Iam comigo onde eu ia, e toda a noite que eu via tinha estrelas penduradas.
Ao contrário das irmãs, se bastavam eu seus silêncios. Mesmo que em todas manhãs soubessem tudo o que penso. A distância é meu veneno! Longe delas me apequeno… Perto delas sou imenso!
E por estrelas que são (quincha de um sonho futuro), sabem mais da imensidão, da lentidão e do apuro, do que eu - que pago o preço! - Não amo o que não conheço e nem enxergo no escuro.
Essas sim, se despediram… Fiquei eu no céu vazio. De tudo o que refletiram sobra a luz do que existiu! Fiquei eu no tempo feio, e as duas em céu alheio se banhando em outro rio.
Eu tive duas estrelas, e mais duas logo adiante. Era costume perdê-las no pasto, ou no meu semblante. Qual o par que mais me importa? Um deles sei que me corta, o outro, que está distante…
Os olhos de quem eu tive brilhavam iguais as que eu digo. Mas amor não sobrevive só de pouso (sem abrigo). Veio o tempo, cor de aurora e as estrelas foram embora deixando a noite comigo.
Rosetas calcei nas botas, barulho pro chão que piso. Recortes do que me volta pelos fios do meu juízo… Veio o tempo, cor de aurora e as estrelas são esporas que afirmo quando preciso!