O Jogo
O campo serve e estende pedras e pastos a tantos, vieram tauras e santos, morando em ranchos, paredes... O taura tinha na bíblia, feita de couro e sem lavra sua linguagem de terra, em Fierro a própria palavra.
Nas pradarias, contendas... O pala envolto no braço, branqueava o acero do golpe entre os estouros de laço. O santo tinha outra Bíblia escrita em fé e oração, uma linguagem de cristo ungida em ressureição.
Assim, no jogo da vida, brotaram nos descampados, abrindo a terra nas vergas de mano a mano no arado. Fizeram ranchos e filhos, mesclas de crenças e raças, - Crina enredada de ventos, - Ventas que soltam fumaça.
Nas carpas pelos bolichos cravaram osso e adaga, (Nasce o primeiro ladrão) roubando a ficha já paga. Surgia a suerte no jogo, e a mão que bota clavado, - Culo que entrega ao paysano seu melhor flete encilhado.
Foi pelas pencas que o jogo se fez mais forte em valor, entravam índios sem nada, saíam Gauchos Doutor. Apostas altas de cobres ou pelo fiambre do dia, - Nada na mala do pobre mas esperança em quantia.
Na reza bruta da trova do mais crioulo rincão, no pranto a própria guitarra paria um verso pagão. Valia um gole de canha, pura, como a rima guaxa, onde o mais taura se agranda, onde o mais santo se agacha.
Roncava o fole de soco entre o valseado e a promessa, porque o final é um casório quando o bailongo começa. Por sesmarias de campo, fio de bigode ou papel, pela mão da moça virgem, filha de algum Coronel.
Chuva e galpão foi motivo nas noites claras de fogo pra’o carteador primitivo ditar as regras do jogo. Todos iguais, lado a lado, nada os separam em batalha, além da sorte que nasce das mãos de quem embaralha.
A plata cumpre seu rito, o santo tenta um sermão, o taura morre de fome mas não se curva a um irmão. Todos têm mesma valia porque o dinheiro não fala, depois que Deus bota as cartas - Vício é coragem que cala.
São nestas timbas da vida que a mesquinhez vem do diabo, - Faca que corta sem pena mas que se solta do cabo. E o mais sovina que esconde o “Ás” da outra rodada, não sente o cheiro das “flores” - Damas de amores, copadas.
Tudo envelhece e se acalma, mesmo acontece com o fogo, chamas que acordam e estalam, vibram no calor do jogo. Fica um braseiro prendido que rememora um passado, se acaso morra uma história, volta e renasce em legado.
E o vencedor? Quem seria? Talvez o taura sem rancho, dono da estrada e da honra mas que se foi de carancho... O santo viveu por terços, sempre mirando pra’o céu, - Pouco reparou na estrada, cheia de trampa e mundéu.
Vieram ao mundo peleando entre repechos aos tombos, muita cicatriz que a vida deixa marcada no lombo. Voltam os tauras e santos, vestem batina ou bombacha, - Peças que o tempo recolhe juntas pra dentro da caixa.