Enquanto Sacava um Tento
Semblante de calmaria em silencioso pensamento; olhar tranquilo e sereno como a luz do firmamento. Feito mangueira de pedra Que guardou ensinamentos No encerrar ânsias matreiras Para amansar, peito adentro.
Enquanto sacava um tento O velho Milton “Ventania”, Por ter a alma dos ventos Seu caminho percorria... Sem fazer conta nem caso Da própria sabedoria, Por causa de um sentimento Que desde a infância trazia.
Num desses dias de chuva Deu pra ouvir da sua boca Algo que cortou mais fundo Que o fio da faca pitoca: -Porquê suas mãos que faziam Cordas fortes e bonitas Não escreviam palavras, Nem dominavam a escrita?!
A vida as vezes nos leva Por rumos que nem pensamos, E nos revela destinos Que sequer imaginamos; Somente perante os fatos Quem se depara percebe, Que o que pra uns é tão simples Pra outros não se concebe.
Desgarrou-se um desabafo Tendo tom de mágoa imposta, E que pra muitos ainda Tem inúmeras respostas... Mas se o bom DEUS quis assim, É um dom divino e bendito Não precisar de caneta Pra deixar o nome escrito.
Sem ao menos se dar conta Na dúvida que o consome, Junto ao feitio dos preparos Já escreveu seu próprio nome; E segue escrevendo a história Como um sábio trançador, Que não precisa pra isso Mais que faca e cravador.
No manuseio do couro, Por guasqueiro de mão cheia, Dá forma e medida exata A cada tento que lonqueia. Delicadeza em mãos rudes Que relembram volta e meia A habilidade da aranha Quando tece a própria teia.
Mãos que carregam consigo Mais que calos, desde cedo; E na destreza do ofício Disfarçam outro segredo... Pois um dilema de tempos Lhe repete a indagação: -Entre o fácil e o difícil O que vem a ser ou não?
E o tempo, velho mundano, Quem sabe ao certo contá-lo? Se pra alguns parece tanto, E outros nem vêem passá-lo. Pois, o velho “Ventania” Refletiu tais pensamentos, Numa fração de segundos Enquanto sacava um tento.