Entre o Tempo e o Destino
Eu aprendi essa história antes mesmo de entender o tempo, dessas que chegam em prosa mansa, rodando na cuia do mate, feito causos guardados no peito de quem já viveu demais. Não é só lembrança, é sina dessas que vêm de longe, dessas que o destino escreve sem pedir licença, dessas que a gente não inventa… só respeita.
Dizem que tudo começou lá pras bandas de uma querência de água clara, onde o povo é mistura e o vento carrega fala de todo canto, onde minha mãe era verso solto no mundo, dessas almas inquietas que não se apeiam fácil, mas que já trazem no peito um silêncio esperando alguém que saiba escutar.
Depois o caminho levou ela pra um rincão mais quieto, terra de fé antiga e céu largo, onde o tempo parece que anda de rédea curta. E foi ali, sem saber, que o destino passou por ela mais de uma vez… montado no mesmo cavalo, mas sem se apresentar.
Se cruzaram, disso eu sei. Mas não se reconheceram.
Porque o destino, quando é de verdade, não entrega de mão beijada, ele testa.
Ele já era campo antes de ser nome, criado no fundo da estância, no respeito da palavra e no peso da lida. Desses que falam pouco, mas quando falam, ficam. Gaiteiro de alma, não desses de baile, mas desses que puxam da gaita um pedaço do próprio peito.
Mas não foi ali.
Não… não foi naquele chão que o amor criou coragem.
Ela precisou se apartar.
Seguiu estrada, cruzou horizontes, como quem não entende direito o porquê, mas sente que a vida tá chamando de outro jeito. E foi num pago distante, de história braba e chão marcado, que o destino resolveu, enfim, se explicar.
Dizem que não teve alarde. Nem precisa.
Foi um olhar meio demorado, uma prosa que encostou sem pedir licença, e uma gaita… ah, a gaita…
Quando ele abriu o fole, não saiu música, saiu verdade. E ela, que era feita de palavra, se encontrou no som.
Ali, pela primeira vez, não se cruzaram, se entenderam.
Ela, dessas que escrevem o que sentem, que carregam no verso o peso da alma. Ele, desses que vivem o que tocam, que escondem no silêncio o que a gaita entrega.
E o que nasceu ali não foi pequeno.
Mas também não foi fácil.
Porque tem amor que chega grande, mas precisa caber no tempo. E o deles veio assim: firme, bonito… e distante.
Respeitado.
Porque entre eles não faltou querer, sobrou verdade.
E numa dessas conversas meio baixas, dessas que parecem simples mas carregam mundo, ela perguntou:
-se a gente tivesse se encontrado antes?
E ele, sem rodeio, respondeu: -capaz… não era tempo.
E não era mesmo.
Porque se fosse antes, talvez passassem batido. Talvez o olhar não demorasse, talvez a alma não reconhecesse.
Tem coisa que só acontece quando a vida ajeita.
E dizem, porque história boa sempre tem um depois, que o tempo, que afasta, também encurta caminho. Que a saudade, quando é de verdade, não desgasta… amadurece.
E ela voltou.
Não como quem se perde, mas como quem se acha.
Voltou pro mesmo chão onde um dia não viu, mas agora enxergava.
E ele tava lá.
Como sempre esteve. Mas agora… no tempo certo.
E foi ali, naquele pedaço de mundo, que o amor deles criou raiz. Sem pressa, sem promessa grande, mas com verdade suficiente pra ficar.
E eu… eu não conto isso por ouvir dizer.
Eu sou esse depois.
Sou o encontro que venceu a distância, sou o verso e a gaita no mesmo compasso, sou a prova de que às vezes é preciso se apartar pra, enfim, pertencer.
E quando me perguntam de onde eu venho, eu não digo lugar.
Eu digo: venho de uma história que o destino escreveu devagar, dessas que o tempo respeita… e a alma nunca esquece.