O Primeiro Sol
Antes do alvor irromper o negro da madrugada, e a cor do amanhecer pintar o dia na estrada, há uma luz que aquece o peito cru dos campeiros; quando o silêncio parece ser o melhor companheiro…
Antes do pala da noite rasgar em raios de ouro e esparramar no horizonte os lumes do seu tesouro, chia a cambona com água pro mate bem espumado; enquanto a trempe trabalha pra requentar o assado.
Antes da Lua emalar o poncho da escuridão, e o dia espreguiçar os braços sobre o rincão, o primeiro sol do pago queima num cerne de aroeira iluminando a penumbra da alvorada galponeira!
Crepita a voz do braseiro numa milonga porteña tocada pelos estalos e bordoneios de lenhas; e as labaredas, dançando com as próprias sombras no chão, acendem brios de coragem na alma de cada peão!
A cuia é um astro que orbita em torno ao sol fogoneiro, na roda que vai girando o chimarrão madrugueiro; cada palheiro é uma estrela, de brasa e fumo incendiada, tremeluzindo seu brilho em preguiçosas tragadas…
Persiste um sestro de sono nos olhos estremunhados, desagravando o abandono de um sonho mal acabado… Perdura um timbre de noite nas gargantas do pessoal, fazendo o tom dessas prosas ser mais grave que o normal…
O primeiro sol é um cocho e, o fogo, o sal que alimenta o silencioso rodeio que nas suas chamas se aquenta. Transmuta o leito das veias de um curso débil e langue num rio de lava pulsando luzeiros dentro do sangue!
Com o brasão da Estrela D’alva, o céu da hora é um lábaro hasteado ao canto de um hino na voz macia dos pássaros. Cardeais e galos e grilos orquestram a sinfonia, e a luz da aurora tremula por entre as barras do dia…
Trinam rosetas de esporas… Acoam cuscos alertas… Relincham pingos na forma… Assim a Estância desperta!
E a peonada valente, na euforia habitual, lembra uma carga de guerra ouvindo seu general...
Sobeja um ar de velório no galpão desocupado... Sequer o velho caseiro velou o pobre finado; saiu varrer as florzitas caídas pelo terreiro, bailando com a vassoura um valseado de patieiro…
Mirada simples e terna, curiosa e provocante, é ver dois sóis às avessas, extremos, no mesmo instante; enquanto um é aceso no céu azul do rincão, no chão o outro se apaga em cinzas de extrema-unção…
Um Sol de luz resplandece pra inaugurar a manhã!
Um sol de brasa adormece no ocaso dos picumãs…