Zaino
Está zaino o céu, com breu… Cor de guabiju criado… Não sei o instante marcado que ele, enfim, anoiteceu… …Mas se fechou, duvidoso, qual pingo que arrasta o toso porque da doma esqueceu!
Céu osco de escuridão… …cor de terra num socado; Com jeito de ser pintado por tisna de algum carvão. …Que ‘mal e mal’ tem luar pra volta e meia clarear as lonjuras do rincão!
Cor do meu pobre ‘sombrero’ furado, copa de bico… Que ficou ‘toldado e pico’ cobrindo rancho e potreiro; …Que escondeu as Três Marias com tamanha covardia pra ficar pretusco – inteiro!
Céu de se dormir mais cedo, de acender as lamparinas… De arregalar as retinas escutando algum segredo; …De ruminar as esperas e não cruzar em tapera talvez por respeito ou medo!
Poncho toldado, sem asas, vestindo o pago por cima… Cor que enfeita a minha rima quando a caneta dá vaza; …Matiz que, querendo ou não, toma conta dum fogão depois que se apaga a brasa!
Cor da amora de bom porte que eu procuro, campereando… Céu sem sinal anunciando chuvisqueiro ou vento norte; …Cor de luto, sem lamento, que já entardeceu cinzento… …bem igual anda mi’a sorte!
Tem o tom do olhar brutal que uma siá-dona bordeja; Céu pesado, que bafeja sereno no pajonal; …Cor da trança traiçoeira que uma bruxa, sexta-feira, põe na crina dum bagual!
Cor de barro de mangueira marcado a casco de potro; Que é diferente dos outros: ...atoleiros, mananciais, com seus salpicos pra cima formando estrofes e rimas no verso dos banhadais.
Crioulo espaço que tem a sombra que já foi tua; Que do teu lado flutua num habitual vai e vem; …Que pinta a palma da mão do alambrador deste chão, e adorna o sono de alguém!
Tem cor de tacho queimado que se demorou no fogo; Cor de algum naipe do jogo nos preceitos do carteado; …O céu pardo da querência carrega a cor da consciência de algum paysano culpado!
Eu bebo este céu mulato no tinto de cada vinho… E quando abro caminho pelas picadas dum mato, sou eu que me torno oculto e ele mal avista o vulto deste meu corpo de gato!
Céu picaço, jeito aflito, feição de ‘carão’ de china; Que assombra, mas logo ensina a seguir o eterno rito que molda um homem maduro perdendo o medo do escuro e aprendendo andar solito!
Zaino, igual meu redomão, este céu que está parado; Como deixando um recado sem esboçar intenção; …Por ser assim, fumacento, nos obriga olhar pra dentro, buscar luz no coração!