A Filha do Patrão
Apparício Silva Rillo
Meu coração tafuleiro se abichornou, certo dia, trampeado na simpatia pela filha do patrão.
119 poemas
Apparício Silva Rillo
Meu coração tafuleiro se abichornou, certo dia, trampeado na simpatia pela filha do patrão.
Apparício Silva Rillo
Os ossos Como signos de cal. A ferrugem Nos ferros enterrados.
Apparício Silva Rillo
Eu tenho Salamancas no meu peito e nelas Teiniaguás pardas ou louras. São ibéricas heranças no meu sangue que fluem da estirpe sarraceno-moura.
Apparício Silva Rillo
Meu boi barroso, lendário, haragano e teatino, te criaste sem destino vagando pelo rincão;
Apparício Silva Rillo
Eta, boizito matreiro esse boizito de pêlo colorado que não tem parador! Não há, que eu saiba,
Apparício Silva Rillo
Paredes de pau-a-pique, sete braças de comprido, chão de barro bem batido, cobertura de capim.
Apparício Silva Rillo
Francisco da Silva Teixeira Brandão... - Que nome formoso! Que nome pomposo!
Apparício Silva Rillo
Pelo caminho por onde ajudaste a levar tantos te levamos. Era domingo. Havia sol e pássaros e automóveis correndo e
Apparício Silva Rillo
Um caminho nunca é triste, é triste quem nele anda arrastando pés timbrados por terras de outra banda.
Apparício Silva Rillo
Rosa, Rosinha, mocinha, à beira rio, sob o sol,
Apparício Silva Rillo
és a chinoca ruiva mais acesa que jamais gauderiou pela campanha. Para encontrar-te basta bater à porta de um bolicho,
Apparício Silva Rillo
Parei rodeio no Tempo... ...e as cordeonas, os botões graves e as primas, o rechinar das carretas,
Apparício Silva Rillo
Os avós eram de carne e osso. Tomavam mate, comiam carne com farinha, campereavam. Sopravam a chama dos lampiões, dormiam cedo.
Apparício Silva Rillo
I Não vou cantar teu vulto de legenda perdido no impreciso dos tempos e das lendas. Nas entrelinhas da história se retraça
Apparício Silva Rillo
Morre o pai e fica o filho, morre o filho e fica o neto e o sangue não se perdeu. Da raiz rebrota a rama,
Apparício Silva Rillo
Recavém , chedas , cadeias, tablado de duas braças, raios, cambotas e maças de guajuvira ou de ipê
Apparício Silva Rillo
Quincha do rancho do mundo que o picumã das queimadas de pouco a pouco azulou.
Apparício Silva Rillo
Buenas, meu Cristo, meu Jesus-Cristinho. Se não levar a mal eu desencilho à luz de sua Estrela o meu tordilho que já vem basteriado dos caminhos.
Apparício Silva Rillo
Chinoca que a legenda dos poemas fez morena, fez bonita, vestida sempre de chita cabelo sempre trançado,
Apparício Silva Rillo
Quando a garoa do inverno me atropela pro galpão, chego a chaleira ao tição, corto um crioulo a preceito,
Apparício Silva Rillo
"Quem muito parte e reparte - já dizia o Malasarte - a si próprio se reserva sempre o melhor do aparte."
Apparício Silva Rillo
Vai a balsa de farinha cruzando o velho Uruguai. Vaqueano dessas cruzadas,
Apparício Silva Rillo
Nazareno fui chamado, por sobrenome - da Cruz. Nazareno da Cruz, um seu criado, por acaso tocaio de Jesus.
Apparício Silva Rillo
Na invernada do meu peito tem mágoas de todo o pêlo, sendo a saudade o sinuelo dessas mágoas que falei;
Apparício Silva Rillo
"Cova de Touro" me chamam e o porquê não me interessa. Quem por frente me atravessa se plancha, roda ou tropeça
Apparício Silva Rillo
Cuia morena queimada confeccionada a lo bruto, rude cálice matuto de amarguentas comunhões;
Apparício Silva Rillo
Este cusco brasino, cara branca, pequenote e rabão, que o parceiro está vendo enrodilhado aí perto do fogão,
Apparício Silva Rillo
Irmão do asfalto, do salto, do assalto, nos ranchos no alto e dos olhos no chão, esquece o imediato, vem ver este mato, beber deste rio - um crioulo Jordão.
Apparício Silva Rillo
Claro, são necessários mas não fundamentais os materiais.
Apparício Silva Rillo
En el más íntimo, más hondo de nosotros, una tropilla de potros galopea. Una tropilla de potros nos golpea...
Apparício Silva Rillo
Há um potro dentro de mim, pedindo cancha. Sinto-lhe o bater do coração inquieto como um tambor a rufar em véspera de peleia braba.
Apparício Silva Rillo
Ah, china maula! No dia em que te trouxe pro meu rancho engarupada na anca do picaço,
Apparício Silva Rillo
- Tem quarto, dona Isolina? - A Rosa! Mas quem diria! - É pra ver, dona Isolina... - Então, voltou a ser china?
Apparício Silva Rillo
Chininha reponta um sonho na lonjura ensimesmada de mais um domingo igual.
Apparício Silva Rillo
Abro o peito, mas no entanto não sei se o canto garanto como meu tema requer. É preciso
Apparício Silva Rillo
Tenho uma ponta de gados - touro, bois, vacas, terneiros. Uma tropilha de baios — um dos baios, estreleiro.
Apparício Silva Rillo
A Laci Osório Está presa na terra - árvore de pedra.
Apparício Silva Rillo
Aponta uma carreta na distância rincha que rincha no silêncio grande que reponta ao passito, Para o pouso da noite,
Apparício Silva Rillo
I Dispo-me da camisa da calça do calçado
Apparício Silva Rillo
"Faz de conta, mulher, que o pão de forno é daqueles leitão que nós criava no rancho de posteiro que deixemo quando a estância do patrão foi-se a la cria
Apparício Silva Rillo
- "Quinze quadras de campo, meu compadre!" - "São minhas, meu compadre, aperte a mão!" Contratos pura consciência timbrados de coração.
Apparício Silva Rillo
A noite nasceu agora do ventre deste luar e eu morri no fogo-morto que foi luz em teu olhar.
Apparício Silva Rillo
Velha gaita fiel de duas falas, intérprete crioula de emoções, que chora na rudeza dos galpões e ri de gosto no esplendor das almas!
Apparício Silva Rillo
Meu tosco galpão de estância erguido sem aparato, aqui no mais te retrato sem te pedir permissão;
Apparício Silva Rillo
Gaúcho velho que foste menino nos entreveros de noventa e três! Brigaste a vida toda com o destino e o destino apanhou mais de uma vez!
Apparício Silva Rillo
Homem não é como pasto que nasce de uma semente. Eu tive mãe, certamente, e um pai eu tive também.
Apparício Silva Rillo
Este oveirinho magrela que lá vai no rumo do galpão, não teve mãe que lhe lambesse o pêlo, foi criado mamão.
Apparício Silva Rillo
Meu nome é Guitarra. Sou vento e cigarras, sou risco de garras e sou algodão.
Apparício Silva Rillo
Como me agrada, Guri, ver-te rasgar a cordeona - uma raiz redomona que havia dentro de ti.
Apparício Silva Rillo
Naqueles tempos, sim, naqueles tempos as casas já nasciam velhas. Naqueles tempos, sim, naqueles tempos, sim,
Apparício Silva Rillo
Rosa de carnes maduras na mais lindice de si. Sonho e cama inalcançados pelo bolso de trocados
Apparício Silva Rillo
para as partilhas do nada que couber àqueles que dei vida em seio e ventre no sêmen feito flor numa mulher.
Apparício Silva Rillo
É muito, muito difícil, fazer-se um poema de José, como, sobre, a respeito do avesso ou do direito
Apparício Silva Rillo
As estrelas pediram, pediram um espelho pra Nosso Senhor.
Apparício Silva Rillo
Deixa de ciumeira, china boba... Tai meu lenço. Seca esta lágrima quente
Apparício Silva Rillo
Enfeitiçou-se meu Uruguai missioneiro à luz alta do candieiro que o luar pregou no céu.
Apparício Silva Rillo
No poncho morno das cinzas dorme o fogo de galpão. Ao escasso calor de seus carvões a cuscada se entrevera com os peões
Apparício Silva Rillo
Cabelo era preto Que liso era o rosto! Teu corpo era flor.
Apparício Silva Rillo
Houve um crime nesta estância. O moço perdeu um freio, foi acender uma vela pro Negro do Pastoreio.
Apparício Silva Rillo
Eu sei que teus relvados serão verdes. Eu sei que haverá flores sobre a relva. Eu sei que escutarás canto de pássaros e os verás entre as ramas também verdes
Apparício Silva Rillo
Afino as cordas do pinho nesta milonga campeira, mais chucra que uma tronqueira mordida pelos baguais.
Apparício Silva Rillo
Traga de vez a garrafa, bolicheiro! me despacha, que hoje no mais se emborracha quem nunca se emborrachou.
Apparício Silva Rillo
A noite é negra macia que eu amo em pratas de lua, a me aquecer os pelegos com brasas de estrelas nuas.
Apparício Silva Rillo
Revejo as fotografias de família - um vezo antigo de exorcização, caça do tempo perdido como nos romances franceses de Marcel.
Apparício Silva Rillo
Nazareno, o andarengo: Melena sobre as espáduas, olhos azuis de céu limpo Na sua cara afilada como que feita em madeira, Bigode de asas caída e a barba ruiva no queixo,
Apparício Silva Rillo
Negrinho do Pastoreio, afilhado da Senhora Mãe de Deus Nosso Senhor! Não te vejo nem te escuto
Apparício Silva Rillo
Porque os animais falavam Não os chamamos jamais de animais. Ademais porque adoramos seus retratos Porque viemos deles e os chamamos
Apparício Silva Rillo
Vago é meu pago. Este que trago, cicatriz em mim, Raiz de minhas íntimas origens,
Apparício Silva Rillo
meu velho pala de seda com meio palmo de franja! Contrabandeado da estranja para enfeitar meu assombro.
Apparício Silva Rillo
Escolho por chamar-te Nazareno para falar contigo frente a frente. Aliás, como sempre faço, quando cruzas nos dezembros de sóis à porta do meu rancho
Apparício Silva Rillo
A noite traz a querência na insônia e na solidão. Rosa que o povo chamava Rosinha, mocinha linda,
Apparício Silva Rillo
Era limpo de cinzas seu traço no céu e a estrela boiera alumbrava seu vôo. Um potro de plumas e asas aos ventos que o tempo em seus tentos
Apparício Silva Rillo
- Capitão velho de guerra, quem te pôs neste caixão? quem te pôs entre estas velas que tremelicam, ariscas,
Apparício Silva Rillo
Dou rédea aos potros que monto na concha das invenções, puando esporas de tempo no pelo dos redomões.
Apparício Silva Rillo
Na estreita da canoa a linha longa. Nela o anzol - garra na sombra líquida O remeiro e seu ofício de paciência
Apparício Silva Rillo
Este petiço, veterano aqui da estância, foi o meu pingo de infância, meu orgulho de guri.
Apparício Silva Rillo
Pinho velho, empoeirado, escutei neste momento as notas que a mão do vento te surrupiou ao passar.
Apparício Silva Rillo
Sobre um rodado leve de carreta, puxada por um petiço mui velho, lerdo e maceta, esta pipa veterana
Apparício Silva Rillo
Não, não me procurem mais no meu velho endereço la no campo. eu estou me mudando,
Apparício Silva Rillo
Mocinha do rancho da beira da estrada, sem brinco, sem seda, sem chita floreada - a chita floreada que tem lá na venda, floreada igualzinha ao ipé da fazenda
Apparício Silva Rillo
Nesse tempo, as fotografias desse tempo não tinham a nitidez das fotografias de hoje Nem mesmo o colorido que as antigas o tinham no mais íntimo de si.
Apparício Silva Rillo
Me orgulho deste meu pago Me orgulho de ser prendinha Em minhas veias caminha O nativismo do Rincão
Apparício Silva Rillo
Quando o berro do boi fizer-se canto, quando as lavouras se fizerem flor; Quando a mão de couro-cru do pastoreio
Apparício Silva Rillo
Já muitos quartearam muitos, — seja aqui ou noutra parte - mas poucos quarteiam poucos no dar-se asas à Arte.
Apparício Silva Rillo
Nem que se passe a lo largo Longito do retalho do banhado Onde é teu chão. Nem assim...
Apparício Silva Rillo
Isto que lerás, meu afilhado, quando souberes ler e sobretudo entender - E o importante, na verdade, é entender - não chega a ser um poema, me acredites.
Apparício Silva Rillo
Eu era um frangote novo, crista curta e meia pua, quando não sei por que lua me deu cambiar de querência.
Apparício Silva Rillo
Ali nascera e vivera na velha Estância da Cruz. Filha de quem? não sabia...
Apparício Silva Rillo
A Rosa que foi de muitos agora é Rosa de um só. China de casa montada na ruazinha arredada
Apparício Silva Rillo
Porque toda a gente chora quando devia sorrir? Só Dona Constança sabe que era hora de dormir.
Apparício Silva Rillo
Quando meu rio Uruguai, que é meu e de todo mundo, dava curso e dava fundo a buques de vigilância
Apparício Silva Rillo
(À sua memória) Sempre que paro rodeio no meu baú de memórias, de lá reponto a história
Apparício Silva Rillo
A uns diz que foi o noivo, a outros, que o primo foi. Mas fosse o primo ou o noivo, fosse o destino ou a vida
Apparício Silva Rillo
Botei um culo-clavado num tiro mui chamboneado de pouca volta e mau rumo. Cambeio a tava por outro.
Apparício Silva Rillo
Vendeu os gados e arrendou os campos. Reservou-se apenas, as casas da Estância,
Apparício Silva Rillo
Morreu largado e solito num fim de tarde pampeano. Pouco depois que a boiera acendera o seu foguito
Apparício Silva Rillo
Como talhado em pau ferro o carão de traços duros. O bigodão mal cuidado desabando sobre os lábios
Apparício Silva Rillo
Sempre a tocar o cavalo João da Gaita se criou. Nem sabia o que buscava
Apparício Silva Rillo
Despionei-me, da última fazenda que nem para patieiro eu já servia. Velho, sofrido, sem china para arrimo, eu sou uma luz de boieira ao fim do dia.
Apparício Silva Rillo
Toca o tropeiro o matungo fazendo a ronda ao passito, lembrando um rosto bonito que na memória se estampa,
Apparício Silva Rillo
A filha moça, mocita, na garupa de um gaudério pelo mundão se rolou.
Apparício Silva Rillo
Voluntário em Vinte e Três, Chico-Pequeno, um piá, deixou rastro na memória dos que pelearam a seu lado
Apparício Silva Rillo
Eu tive um lenço pachola que agora não tenho mais. Lenção de cor colorada como a flor da corticeira
Apparício Silva Rillo
“Em Caminhos de Viramundo. Porto Alegre: Martins Livreiro, 1979” Mirava a lua no açude.
Apparício Silva Rillo
I — RUMO - Como teria sido? - Quando foi?
Apparício Silva Rillo
Afino o pinho e a garganta para contar a história, daquela china simplória que tentou me engambelar.
Apparício Silva Rillo
Ser um homem do campo é estar na cidade de terno e gravata e ter a alma debruçada sobre os ombros como um pala de seda retovado
Apparício Silva Rillo
Ter sido não é ser, é perceber-se na estampa do retrato dos avós, é estar além do vidro das molduras
Apparício Silva Rillo
Eu já tive sete amores, um morreu, ficaram seis. Dos seis amores que eu tinha um partiu, ficaram cinco.
Apparício Silva Rillo
Quando o guasca deixa o rancho no abandono, o rancho vira tapera, cria morcego e cupim.
Apparício Silva Rillo
Caminham guaranis pelas estradas, trapos de gente se arrastando a pé, resto da raça dos meus Sete Povos, últimas crias do sêmem de Sepé.
Apparício Silva Rillo
Esquilei a safra inteira desde as barras da manhã. O tempo trouxe o inverno, meus filhos não tinham lã.
Apparício Silva Rillo
Encontrei-te encharcada pela chuva - o céu se derramara sobre ti. Teus seios eram cômoros de areia e a água que escorria dentre eles
Apparício Silva Rillo
Um palmo e pico de aço, rude e glorioso pedaço da espada de um general. Cabo de prata estrangeira
Apparício Silva Rillo
Me chamam Ventania porque estou sem estar e sem asas ou plumas me vêem a voar.
Apparício Silva Rillo
Teu ventre, lua morena cortada em fio de minguante, plantado em grãos de ternura fez a semente madura,
Apparício Silva Rillo
É preciso quebrar pedra, Violentar o cal da argamassa. É preciso cavar a terra úmida, Verde de musgo alimentado a músculos.
Apparício Silva Rillo
Antes do trem, chega o apito fino e, agente aque espera o trem toda se empolga para ver o filme que, um dia sim, outro não,
Apparício Silva Rillo
Anca redonda, cinturinha fina... - Como é perfeita a ilusão! Por isso a gente imagina