A Dor da Saudade
Sebastião Teixeira Corrêa
Quando a saudade vem bater nas casas Varando a noite, pelas horas mortas. Os pensamentos logo criam asas E os corações deixam abrir as portas
71 poemas
Sebastião Teixeira Corrêa
Quando a saudade vem bater nas casas Varando a noite, pelas horas mortas. Os pensamentos logo criam asas E os corações deixam abrir as portas
Sebastião Teixeira Corrêa
I Da vida e da morte de Chica Pelega, Existem histórias, por causos e lendas, Francisca Roberta, Pelega na alcunha,
Sebastião Teixeira Corrêa
Há um campo largo, muito largo, imenso Sob o horizonte de minha’lma Que muitas vezes, quando paro e penso Eu me convenço, que infinito.
Sebastião Teixeira Corrêa
Quem passa naquela estrada, pras bandas de Camaquã, Vê uma tribo abandonada, esquecida por Tupã... Raízes da pampa
Sebastião Teixeira Corrêa
Que pena, o campo tombando, Sob os discos de um arado A coxilha está chorando Por ter seu ventre rasgado.
Sebastião Teixeira Corrêa
Meritíssimo Juiz Peço vênia neste instante, Porque reputo importante fazer a observação; Eu não tenho a pretensão de contestar a justiça,
Sebastião Teixeira Corrêa
Olhei o rio, com tristeza, ao ver as águas tão turvas, E um pouco de natureza, morrendo nas suas curvas...
Sebastião Teixeira Corrêa
Contrabandeei sentimentos Na sina de correr pagos, Em malas de suprimentos Abaratadas de afagos.
Sebastião Teixeira Corrêa
Há um momento em que o passado, Por mais que esteja distante, Parece voltar, num upa, Cavalgando um pensamento;
Sebastião Teixeira Corrêa
Alma estradeira, de horizontes largos, Sina de andante, por caminhos vagos, Sem pressa ou rumo, pois não tem encargos, E esse destino de tropear afagos
Sebastião Teixeira Corrêa
Voltei ao pago que um dia Extraviei os meus brinquedos, Tive sonhos, fantasias, Infância, ânsias e medos.
Sebastião Teixeira Corrêa
Fora parida na estância Por parteira de mão boa. Cresceu menina bonita, Com seu vestido de chita
Sebastião Teixeira Corrêa
Escancarou-se a porteira dos campos de minha infância para que a tropa judiada buscasse novo horizonte,
Sebastião Teixeira Corrêa
Extraviei meus sonhos nos confins dos anos que, de tropa mansa, fez-se chimarrona, viraram alçados, xucros, araganos, com patas ligeiras de potra gaviona.
Sebastião Teixeira Corrêa
I III A tarde desceu sebruna Eu fico, ao longe, bombiando Ponteando nuvens cinzentas, Essa tormenta que passa Dessa que, de branca espuma, Parece, mal comparando
Sebastião Teixeira Corrêa
Olhei o terreiro grande, onde outrora o galo índio Exibia sua prole nas manhãs de primavera;
Sebastião Teixeira Corrêa
I Me perco, as vezes, contemplando a estrada Que se prolonga ao rumo do infinito; Atrás, há um rastro de ilusão passada,
Sebastião Teixeira Corrêa
O céu tingido de sangue Sobre a linha do horizonte Onde o sol vermelho e langue Se debruça atrás do monte
João Antônio Marin Hoffmann e Sebastião Teixeira Corrêa
Quando o sol vai repontado Pela lua no horizonte... Na sombra d’um tarumã, Me bombeiam d’outro lado
Sebastião Teixeira Corrêa
A trilha guardou a história Daqueles que abriram a trilha, Desenhando geografias Pelos rumos dos cargueiros;
Sebastião Teixeira Corrêa
Os sulcos fundos das rugas São rios de águas salgadas Que a erosão do meu rosto, Formando um mar de desgosto,
João Antônio Marin Hoffmann e Sebastião Teixeira Corrêa
Retesou-se o nó dos dedos, quando beijou a madeira. Isaura, sempre a primeira nas lides do amanhecer, Da porta de duas abas, frinchou o cume da mesma, Numa cautela arredia, pois estas horas, diacho,
Sebastião Teixeira Corrêa
Das botas velhas, já gastei a sola, Campereando os rumos que sonhei pra mim. O mundo foi a minha grande escola, Um corredor que nunca teve fim.
Sebastião Teixeira Corrêa
I Chininha levantou cedo Abriu com calma a janela, Tinha um semblante de medo
Sebastião Teixeira Corrêa e João Antônio Marin Hoffmann e João Adauto da Silveira
Prás bandas do palmital, onde o sal tempera o chão, Nas manhãs frias de julho a lida desperta o sol, Pr’alguns Joões que a vida, não foi assim generosa, Pois, nesta plaga arenosa, quando opções se consomem,
Sebastião Teixeira Corrêa
Quando as rastras sobrarem das cinturas E os bicharás sumirem dos invernos, Quando morre o verde das planuras E quando a noite e o frio forem eternos.
Sebastião Teixeira Corrêa
Caiu a noite mais braba D’uma invernia de agosto, Onde a neblina trançada Batia de encontro ao rosto
Sebastião Teixeira Corrêa
Noites de inverno, quando a geada fria, E alvo véu a recobrir a pampa, Enquanto, ao gancho, uma chaleira chia, Golpeio as mágoas, no cantil de guampa.
Sebastião Teixeira Corrêa e João Antônio Marin Hoffmann
A mão cansada do velho A muito custo segura O frágil braço do neto, Na iminência do abismo
Sebastião Teixeira Corrêa
(Aos homens do campo que hoje enfrentam, sem amparo, a covardia dos criminosos, criando gravíssimo problema econômico e social.)
Sebastião Teixeira Corrêa
-Não sei se a vida começa num sonho que se eterniza Ou se o viver é uma brisa que passa muito depressa- As vezes eu imagino que o tempo é uma roda grande
Sebastião Teixeira Corrêa
Olhei o tempo, pelo vidro embaçado das retinas, onde uma nuvem mansa de neblina, aquerenciou-se, sem pressa de ir embora...
Sebastião Teixeira Corrêa
As rimas xucras dos versos, se retesam na garganta Quando canta um pajador; E o poema toma forma, quando
Sebastião Teixeira Corrêa
Das gargantas eloqüentes, como o nascer de um teorema, Vai emergindo o poema que o poeta rabiscou, E as mãos... ( a vida no estro...), à modelar, qual maestro, O concerto que brotou...
Sebastião Teixeira Corrêa
Nasci no campo, como nascem tantos outros, Ouvindo os potros em relinchos, de retoço, Os sons da vida nas vozes da natureza E a correnteza do arroio, antes do poço
Sebastião Teixeira Corrêa
Escorropicho esse mate até o ultimo gole Porém a sede do copo Não é maior que a secura Que trago dentro da alma
Sebastião Teixeira Corrêa
O inverno chegou mais cedo E a noite cobriu coxilhas com alvo lenços de prata O céu bordado de estrelas Parece estar tiritando no relento do universo;
Sebastião Teixeira Corrêa
Quando me sento Nos fins de tarde, de fronte ao rancho, E sorvo ausências No gosto amargo das cevaduras;
Sebastião Teixeira Corrêa
Todo o verde do meu campo sobrou na cuia de mate, que sorvo ao pé do braseiro nas horas de solidão
Sebastião Teixeira Corrêa
Por onde andarão os versos Que escrevi nas madrugadas, Quando a aurora da vida Chegava batento cascos
Sebastião Teixeira Corrêa
Senhores, peço licença; Pedir licença é preciso... Espero, eu seja conciso, Ao fazer este relato,
Sebastião Teixeira Corrêa
Neste universo de sonhos, em que mergulho meus dias, Há um mar azul de esperanças e anseios de ser feliz, Um barco tocado a velas, flutua ao soprar do vento, Sem nunca encontrar a costa:
Sebastião Teixeira Corrêa
Ontem vendí meu cavalo... Foi o final de uma etapa Da vida deste peão;
Sebastião Teixeira Corrêa
- Deus abençoe os poetas Que transformam sentimentos Em palavras de ternura, pros veios do coracão! Deus abençoe os poetas
Sebastião Teixeira Corrêa
Emplumado sentinela Que ronda a noite da\ pampa Retratas em tua estampa De monarca das coxilhas
Sebastião Teixeira Corrêa
Rancho,tapera de sonho Sonhado em tempo de moço, Com jardim, quintal, varanda, Cinamomo, água de poço.
Sebastião Teixeira Corrêa
Rastreei saudades perdidas, no interior de mim mesmo, Lembranças já esquecidas que adormeceram a esmo; Andei nas trilhas da ausência, que a muito já não andava, E encontrei minha querência, que há tempo não encontrava.
Sebastião Teixeira Corrêa
Meus olhos amanhecidos Reclamam noites de insônia Que há tempos venho passando
Sebastião Teixeira Corrêa
É ainda de madrugada, E pelas frinchas do rancho Vejo um clarão que se espalha Pelos caibros do galpão
Sebastião Teixeira Corrêa e João Antônio Marin Hoffmann
Matear ao pé do fogo divaga nossos pensares, E nestas horas que a gente dá asas pro pensamento... O meu, engarupou-se no vento,
Sebastião Teixeira Corrêa
Pelos campos do Rio Grande, Existem tantos mistérios Que nem mesmo os cemitérios Os conhecem por completo...
Sebastião Teixeira Corrêa e João Antônio Marin Hoffmann
Por de sol é fim de tarde. Cambona escuta calada Do braseiro o cochichado… A fumaça matizada
Sebastião Teixeira Corrêa
Dona moça foi-se embora, do campo para a cidade, Dona moça agora chora o preço da vaidade, Quis ter vida de princesa, ser moderna, andar na moda, Quis conhecer a nobreza, circular na alta roda.
Sebastião Teixeira Corrêa
Chegaste um dia no rancho, principiava a primavera E o meu coração tapera ganhou vida nesse instante, Foi teu sorriso o bastante pra encher de luz a morada E encontrar na madrugada a boieira mais radiante
Sebastião Teixeira Corrêa
A linha tênue que aparta A razão de homem campeiro Das raias do desvario Não suportou a injustiça
Sebastião Teixeira Corrêa
Ao despeonar-se, Juvêncio, juntou as tralhas que tinha, Poucas relíquias guardadas numa vida de ilusão: Aperos de montaria, facas de aço, forjadas, Cordas campeiras, trançadas, pra lidar com redomão
Sebastião Teixeira Corrêa
I Ela chegou, foi num final de tarde, Sem muito alarde, foi entrando e, aos poucos, Como uma chama branda, mas, que arde,
Sebastião Teixeira Corrêa
Quando a prata da lagoa se anuncia no horizonte, Balançam, sobre os rodados, os velhos lanchões de guerra, Tais quais antigas galeras, de Marco Antônio, no Egito, Ou vasos, de Maldonado, trocando as águas por terra.
João Antônio Marin Hoffmann e Sebastião Teixeira Corrêa
Tava incrustrado no couro, já era herança de vidas... Queria cambiar deveras, de posteiro, minha lida, Quando o capataz matreiro deu-me um presente de grego, Já me esperava ençilhado, o maula de cabos negros...
Sebastião Teixeira Corrêa
I Tira tua venda ó Deusa da justiça E olha nos olhos dos teus magistrados, Vejas o quanto que andam degradados
Sebastião Teixeira Corrêa
Quem disse que ele se foi por certo não compreende que um poeta não se vai; Apenas libera a alma pra ir buscar energia e um dia poder voltar.
Sebastião Teixeira Corrêa
Olhem a serra, e verão aquelas, Com traços de além-mares, Que plantaram povoados e pomares, E tem no corpo ainda as cicatrizes,
Sebastião Teixeira Corrêa
Nos relicários dos museus da história, Onde se perfilam os medalhões, De ouro, prata e bronze, E onde se tem a dimensão exata,
Sebastião Teixeira Corrêa
I Quando, nas tardes, sento para o mate Dou rédeas largas aos meus versos potros, E uma saudade danada então me bate
Sebastião Teixeira Corrêa
Se todas as penas Fossem apenas pena de quem tem piedade... Se todas as penas
Sebastião Teixeira Corrêa
Dormia a noite em silêncio Na madrugada infinita, A lua desceu bonita Na imensidão do horizonte,
Sebastião Teixeira Corrêa
Parceiro, me ceva um mate Que há uma secura tão grande Queimando dentro do peito, Como uma brasa de cerno
Sebastião Teixeira Corrêa
Vejo descendo a canhada Um tordilho nevoeiro, Num tranco largo, faceiro, Estampa quarto de milha
Sebastião Teixeira Corrêa
Há um busto vivo, de bronze, Harmonizado na praça, Que é peça da arquitetura Onde os traços da escultura
Sebastião Teixeira Corrêa
O patrão Velho, afinal, Juntando esteio a esteio. Prepara o grande rodeio Da virada do milênio,
Sebastião Teixeira Corrêa
De São Borja, uma legenda, Que a mãe fronteira pariu, E que, aos poucos, dividiu, Com as pátrias do continente