A alma que mora no galpão
A alma que mora no galpão
O sol paira nos umbrais Onde a réstia de sol se agiganta Uma perdiz se levanta Na vastidão do Horizonte E a tarde cai de fronte Aos anseios da lida E a água que jaz aquecida Acalenta um mate cevado Da cuia que faz costado A figura quase esquecida
Junto ao candeeiro requeimado Sobre as garras de couro cru Paira a alma de um xiru Misturada na fumaça do fogão E se acomoda junto ao tição Nestas simbioses da lida Onde alma encontra a vida E o amargo se sobressai O espírito faz que se vai Mas é uma alma perdida
Relembra os tempos idos Das carnianças e dos entreveros Entre mangueiras e potreiros Sempre costeando a tropa Oitavada leva a mão na copa Ao lembrar as gadarias As léguas de sesmarias E sua herança avoenga E a velha sina andarenga De andejar as pradarias
A mesma alma sestrosa Teima em negar seu rumo Culatreia fazendo resumo Esperando a cuia do mate Se acomoda neste arremate Escutando os causos do dia Entorpecido de nostalgia Das patacuadas campeiras E ali... junto as basteiras Relembra com galhardia
Talvez fora mui vaqueano Dos tempos do saladeiro Que andejou de picanheiro Culatreando mui bravo De cujos nos versos que lavro Por certo uma alma sofrida Que viu nas cruezas vividas O sentido de se viver Pelo anseio de pertencer Aos repechos desta vida
Volta a sentar ao meu lado Quando a chaleira dou de mão Na espera da comunhão Deste ritual sagrado Segue mirando o passado Alisando o pelo do cusco Entre rabiscos e chamuscos De uma pintura abstrata Carregando a sina ingrata De assustar no crepúsculo
Entre muitas verdades E o que parece boato O destino é um mero fato Onde as almas recolhidas Padecem entristecidas Frente a porteira de varejão As lides, o gado e o fogão São ranhuras recolhidas Por estas almas perdidas Que pairam sobre o galpão