Inventário da partida
Inventário da partida
Ao se encontrar na subida No derradeiro sono As almas em abandono No final em despedida, Carregam as dores da vida Como bagagem ao céu Não como um troféu Mas em sentida vivência Onde a última providência Morreu na amargura do fel.
As feridas da convivência Pelas provações vividas Onde as ilusões da vida Encontram transcendência Tem na terra a onisciência E o pesar de mil dizeres O sentir de tantos deveres Não cumpridos em virtude Do tempo... ou da saúde Mermando entardeceres
Sentimentos não ditos Contratos não cumpridos Desencontros sentidos Que pelo fim, em conflito Deixaram o plano finito Para ecoar na história As almas, suas memória De sentimentos e amores Carregaram por fim rancores Aos portões...da santa glória.
Uso de certa imaginação Ao compor o pensamento Pois imagino o lamento De partir num sopetão Deixar o mundo em razão Do tempo que chegou ao fim A vida concluída enfim Mesmo sem estar pronto Para uns, lamento e afronto Para outros apenas clarim
Ninguém espera a morte Como normalidade presente Vivemos de forma anuente Tocando a vida pelo norte E se tem algo mais forte Na dilação do tempo É viver a dúvida do lamento Na protelação do devido Onde o próprio falecido Parte na dor do sentimento.
Tudo mais fica para trás Quando inicía a partida Emalar o poncho na subida Caminho que não se desfaz A história devéras voraz É uma pintura inacabada Com a obra prima deixada Sem sua última figura Onde a própria assinatura Avaliza uma tela borrada.
No tribunal do tempo Não se aceitam petições Onde suas contrarrazões Se extraviam ao vento Este tribunal do lamento Onde versejam os pleitos Em que cada sujeito Toma consciência do fim Nos limiares do jardim Se encontram imperfeitos
O tempo em torno da vida Rejeita qualquer liminar Tampouco medida cautelar Que protele a vez da partida Os embargos da pretendida São nulos neste tribunal Onde a Inépcia da inicial É devolvida a contragosto E seu último exposto Perdera o prazo a final.
Neste tribunal de vivência Se acautela o prudente Que leva a vida consciente De um fim, sem pendência Onde a divina solvência Baliza do fim ao começo Quando o custo e o preço De um viver equilibrado Justificam um fim honrado E garantem um recomeço
Como um basto apertado Numa rangente carona Pelo atrito que entona No ranger encilhado Morrer é fato sagrado E não é esse o problema Pois o sentimento do tema É deixar tudo para adiante Na fé, que o tempo garante Resolução ao dilema