O Silêncio
O Silêncio
O silêncio me quita os ouvidos Numa pampa requeimada Onde o sol descampa a lo largo Sobre a coxilha alumbrada A primavera prenuncía A altivez da passarada Gorjeando ante a recolhida Num capão desta invernada Ao graxaim que desentoca Numa imagem que provoca O dom da vida deslumbrada
Num moirão oitavado O urutau se desponta Na melancolia do canto Que o silêncio reponta O gado pasta complacente Culatreado pela afronta Do cantar entristecido Que dá brilho e sentido Para lida que se apronta
No galpão bem quinchado Sobre o braseiro se acampa A chaleira esfumaçada Fervendo de saltar a tampa Onde o Rio Grande se valida E faz da crueza uma estampa Aqui exclama "cue puxa" A tradição mais gaúcha Verte nos olhos da pampa
O silêncio do campo vago Ante ao barulho do povo Faz da realidade distância Onde minh'alma renovo Entre o céu e as gadarias Onde o macho faz retovo Sesteio nos mesmos pastos E morrendo em campos vastos Volto pra ser gaúcho de novo
Onde o cheiro da pampa Se agiganta nas narinas O horizonte é logo ali Na realidade nunca termina As cercas e suas divisas São cicatrizes femininas Numa pátria que é mãe farrapa E a tradição é uma mera capa A proteger a alma campesina
Aqui que o taura suplanta Em campo vasto sobejo O modernismo na pampa É estampa de mero azulejo O fogo é feito do toco E o índio é louco de andejo Aquilo que o mundo cobiça Aqui é uma mera premissa Onde o silêncio é tudo que vejo
O que quebra o silêncio do pago É o aboio do campeiro sotreta Que embala a tropa pra diante Assobiando de forma discreta Onde o pago ganha o céu Num sovéu quase profeta Entre os lampejos da lida A vida que parece sofrida É inspiração para todo poeta
No ronco do último mate Entre as estrelas e o galpão O céu é um campo largo E a lua o fiel da razão Onde as rezes cruzam o céu Luzindo olhando pro chão E o patrão velho tenaz O verdadeiro capataz Mateia ao pé do fogão