Tempos de seca
Tempos de Seca
No estender a mirada Ao descampado horizonte Surge como um afronte A visão triste do açude Pela seca que ilude Os caminhos da sorte Trazer chuva pelo norte Com a altivez mermando N'água que vai findando Surgem suspiros de morte
É tempo de seca forte É tempo de inquietude Não há nada que mude Que não venha do céu Parece estarmos ao Léo E o calor vem queimando O solo segue rachando As plantas vem sentindo Que o ciclo ja é findo E aos poucos vão secando
Tal como o viver Interrompido na metade A seca é uma verdade Varada em lamento A seca é um momento De ausência sentida Uma pausa merecida Num ciclo perfeito Estiagem não é defeito No calendário da vida.
Tempo silencioso das águas Onde se ouve o pesar A chuva se faz esperar Pelas lançantes canhadas O esperar das aguadas Vai curtindo a alma do Cuera Fazendo das moradas... tapera Entre rachaduras e fendas Nada esmorece a contenda A não ser... a prudente espera.
O solo em sacrifício Abre o chão por carência Na espera da suma benevolência Fazer sua santa parte Regar este solo sagrado Onde o produtor angustiado Reconta suas cicatrizes Arrancando do chão as raízes Num campo jaz devastado.
A seca é marco profundo Onde aprendemos sentir dó Lembrar que viemos do pó Saber olhar para o céu Saber tirar o chapéu Quando de joelhos cair Humildade garante o pedir Por uma bênção guardada Apagar o pó da estrada Já é motivo pra sorrir.
A seca é confronto mortal Num manifesto de ausência Um teste de resistência Onde o sol conivente Mata no solo a semente Que ferve em campos áridos Onde os olhares pálidos Pintam um quadro erudito Num período quase infinito Onde se encontram os ávidos.
Só quem conhece a mudez Da terra seca calada Conhece a melodia cantada Quando nuvens no horizonte Abrem cancha pelo fronte Despencando em manancial Pouco importa o temporal Que toca o solo com vigor Trazendo cheiro e sabor Onde a vida... vence a final.