Entre a Estrela e a Cruz
No frio da pedra o entalhe Emblemas de eternidade Suspiro longo em saudade Que a nostalgia conduz Escuridão que foi luz Mãos que só levam o terço Certeza que vem de berço Quem foi estrela, hoje é cruz
Ao nascer somos estrelas Perfeita inscrição no jazigo Os rebentos trazem consigo O próprio sol da esperança Na vida, jamais se alcança O mesmo grau de pureza No céu eu tenho certeza Que a maioria é criança
Luz que desperta o cuidado De tigre guardando a cria Cambona ainda vazia Onde cada exemplo, acolhera Num misto ternura e fera Sorvendo padrões paternos Onde o rigor dos invernos Pode engolir primaveras
Se filho é benção divina Exemplo é mais que conselho A tua conduta é o espelho Onde ele vai se enxergar Tudo que verte em teu lar Enche esse copo vazio Pra lhe seguir como um rio Por ver você, como o mar
Pulsam ânsias mais adiante De indomável inquietude Vicejos da juventude Essa espumante da vida Num golpe só consumida Borbulhando inconsequente Taça em cristal reluzente Que o tempo quebra, em seguida
Vem marca de ferro em brasa Queimada por nossas faltas Nas fantasias mais altas Onde o ingênuo se baba É amor primeiro que acaba E não polemiza jamais Pois, por ser puro demais Logo em si mesmo.... desaba
Depois a carga dos anos Por peso imprime seus rastros Tropilha de sonhos gastos Pro rodeio de homem feito Rancho e prenda a preceito Vislumbre de agora e depois Caminho trilhado a dois Partilha sonho e defeito.
A vida é brasa pequena Que o tempo sopra constante Queimando os dias por diante Parelha em seca ou enchente Por fim se dá conta o vivente Já no branquear das melenas O gosto das próprias penas Adoça de andar com a gente
Palavra escassa e certeira Olhar pensante a esmo E a percepção de si mesmo Entre a graça e o mistério É o que chamamos de velho Sempre em tom de despedida Pra quem maneou tanta vida A morte..... não é causo sério
O sopro vital vai se pondo Por certo o sopro mais raro Tecido entre o pó e o barro Com o mais divino endosso Milagres em carne e osso Que já nos altos da idade Mascando o viés da saudade “Resojam” baldas de moço
E chega o dia da cruz Data que não se revoga É quando o ouro não joga Não há mais tempo ao caixão Pedir ou de dar teu perdão Um último afago ao guri Quem chora a morte por ti Chora a própria de antemão
Restam rituais de partida E um corpo, copo vazio Da pedra o mesmo frio Que a nostalgia conduz Escuridão que foi luz Mãos que só levam o terço Certeza que vem de berço Quem foi estrela, hoje é cruz!