Réstia de Sonhos
Eu trago sonhos antigos Que a muito tempo me habitam E volta e meia palpitam Como lembranças latentes Das frestas de minha mente Não podem ser apagadas Que as cicatrizes deixadas São do tamanho da gente.
É o flete do pensamento Que insistente pateia Com ferradura troteia Escoltando nostalgias Assombra as noites e dias Com suas memórias sofridas Pra depois lhes dar guaridas Lambendo o sal das poesias
Será a maldição do poeta Se ater em sonhos perdidos? Buscando réstia em jazigos Como se fossem portais Ou é a carga dos mortais Ombrear o peso das faltas Pagando as custas mais altas Do que não teve jamais.......
Mas eu arrisco um palpite Na volta dessa carpeta A vida é um jogo sotreta Com a sorte mal convidada E a morte ganha com nada Joga por farra o embate Por ter a carta do bate’ Desde a primeira rodada
Réstia de sonhos assombra Nos cobra a juro composto Que a mente adoça o gosto A revelia da consciência Talvez só por penitência Ainda mais nós queremos Aquilo o que não tivemos Fica perfeito na ausência
Sina que a todos persegue Fardo habitual do vivente Remoer nos bretes da mente O que poderia ter sido Talvez o caminho perdido Que ficou pela encruzilhada Apartava o tudo e o nada De um sonho nunca vivido
Quem dera eu ter outra armada Na cancha dessa existência Pra cadenciar com tenência Meu laço chamado instinto Saber domar o que sinto Nesses ímpetos da mente Mesmo igual ser diferente Maneando o sonho distinto
Não há caminho que atalhe Nem por fortuna ou poder É a própria essência do ser De intransponível cancela O cosmo assim nos nivela E a evolução tem por base Porque no jardim do quase A flor é sempre mais bela
Ainda que morram os sonhos Nada é maior que nascer Sem mesmo ao certo saber Nessas cartilhas da crença Ou nos conceitos da ciência Que impõe o acaso do acaso Entre o divino e o raso Vale de fato... a existência
Todo ser há de ser grato Que desse jubilo faz parte Ainda adoçado com a arte É milagre em duas escalas Que o chão batido das salas Convida pra o seu valseado Num poema bem declamado Com o verso vestindo as galas
Por fim as réstias de sonhos Moldam a nossa conduta Tem fidelidade absoluta Olhos sempre em seu posto E as lágrimas em teu rosto São formas de nós senti-las É sal que abre as papilas Que faz a vida ter gosto.