Releitura
Surgem do fundo do tempo, dos romances e dos livros personagens de verdade, que na memória estão vivos um a um, rompem as folhas, no branco que foram escritas pra povoarem outras histórias, que ao tempo não foram ditas...
Quem sabe houve um romance, de Capitu e Dom Segundo que fez a moça perder-se, no existencial do seu mundo. Quem sabe Macunaíma, tenha botado mais banca quando cruzou com Blau Nunes, nas furnas da Salamanca.
Contam que Antônio Chimango nos cerros de Caçapava esperou por Gabriela, que do telhado, lhe olhava. Quem duvida que Brás Cubas, depois de morto, no além tenha voltado, amoroso pra Dona Flor, ser seu bem...
Parece que noutros tempos, um tal Capitão Rodrigo peleou com Diadorim, sem nem temer o perigo que Riobaldo, exilou-se, cansado de tanta guerra nos campos de outra querência e conheceu Ana Terra.
Imaginem Quincas Borba, proseando com Sancho Pança no seu burrico estradeiro, herói empunhando a lança E Dom Quixote a cavalo na frente dos seus moinhos esperando Santos Veja, pra descobrirem caminhos...
Correu na boca do povo, que Tieta em seu Agreste não quis Finado Trançudo, porque, era “cabra de peste” que depois desconsolada, entre o amor e sua fé foi curar as suas dores com o Analista de Bagé.
Contam até que Severino, sofreu junto a Jacobina e os dois, depois se encontraram na sua morte Severina. Que Policarpo Quaresma, já no seu fim derradeiro se emborrachou com Romualdo, num bolicho em Vichadero.
Nos contam que Paulo Honório, o Coronel Nordestino chorava por Macabéa, em seu tortuoso destino. Há quem já tenha ouvido Martin Fierro, em seus poemas cantando coplas de amores, pra moça, índia Iracema.
E assim mesclaram-se histórias dos romances e dos livros de vultos e personagens, que pelo tempo estão vivos. É o imaginário da gente, temperando esta mistura que até periga a verdade, numa outra releitura!
Estes personagens habitam o nosso imaginário cultural, e refletem a expressão do povo. Cada uma delas empresta suas feições e características a uma parcela dos muitos regionais que compõem a nossa literatura universal. Com a licença dos escritores, faço esta mistura de personagens de forma natural, como se eles fizessem parte de um todo. Que apenas o imaginário poético, que aprendeu a ler e gostar do que leu se atreveria fazer.
Capitu: de Dom Casmurro (Machado de Assis) Dom Segundo Sombra: de Dom Segundo Sombra (Ricardo Guiraldes) Macunaíma: de Macunaíma (Mário de Andrade) Blau Nunes: de Contos Gauchescos (Simões Lopes Neto) Antônio Chimango: de Antônio Chimango (Amaro Juvenal) Gabriela: de Gabriela Cravo e Canela (Jorge Amado) Brás Cubas: de Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis) Dona Flor: de Dona Flor e Seus Dois Maridos (Jorge Amado) Capitão Rodrigo e Ana Terra: de O tempo e o Vento de Erico Veríssimo Diadorim e Riobaldo: de Grande Sertão Veredas (João Guimarães Rosa) Quincas Borba: de Quincas Borba (Machado de Assis) Sancho Pança e Dom Quixote: de Dom Quixote de La Mancha (Miguel de Cervantes) Santos Veja: de Santos Veja El Payador (Hilário Ascasúbi) Severino: de Vida e Morte Severina (João Cabral de Melo Neto) Jacobina: de As Paixões de Jacobina (Luis Antônio Assis Brasil) Policarpo Quaresma: de Triste Fim de Policarpo Quaresma Romualdo: de Causos do Romualdo (Simões Lopes Neto) Martin Fierro: de Martin Fierro (José Hernandes) Tieta: de Tieta do Agreste (Jorge Amado) Finado Trançudo: de Finado Trançudo (Apparício Silva Rillo) Analista de Bagé: de Histórias do Analista de Bagé (Luis Fernando Veríssimo) Iracema: de Iracema (José de Alencar) Paulo Honório: de São Bernardo (Graciliano Ramos) Macabéa: de A Hora da Estrela (Clarice Lispector)