Contando Estrelas
Eu, ontem, resolvi contar estrelas ... Mas não este contar... de somas matemáticas... Contei em poesia, cada uma que enxerguei... Contei pra quem quisesse ouvir ... ... a alma, a entrelinha... o devaneio! Por certo que o bom vinho E a quentura de um fogão à lenha Tiveram culpa grande, nesta empreitada cosmonáutica ...
Comecei pelo mais óbvio ... As Três Marias! Reticências infinitas ... qual o céu que elas habitam E estão sempre lá... Bordando lantejoulas, abrilhantando a noite, Com seus pontos-cruz característicos Como se fossem índigos cristais Convidando a flor dos olhos a lhes conhecerem!
Como podem três estrelas, Serem gêmeas desse jeito? Orbitando o mesmo rumo... sem nunca se desprenderem? Devem ter "um quê" de irmãs... e um tanto de boleadeiras Pois se viessem pra baixo, num tiro de volta certa Amontoavam mil poetas Com elas dentro do peito!
E eu me topei pealado ... e com quatro adagas na escolta ... Que me serviram pra volta depois que perdi o norte Não eram adagas de morte, vagando no escuro azul Mas o Cruzeiro do Sul, que quincha a minha morada E que me guia na estrada... no campo... no mar aberto ... Pois guarda o mesmo dialeto que eu aprendi lá nas casas Pois se me perco... extravasa: a luz que guia meus passos E é vela acesa no espaço Pra impulsionar minhas asas!
E vôo sem cerimônia... saio de mim e do corpo Sigo tarqueando, qual louco, em verso, as constelações ... Pensando que nos rincões, por mais distantes que sejam Se enxergam as mesmas estrelas, as vezes com outro nome ... E segue a fome dos homens querendo ganhar os céus E segue a fome de tantos chorando por este chão
Há tanta estrela no céu... que meu verso não alcança... Mas eu não perco a esperança de seguir contando elas Que o verso é uma janela ... um pedacinho do mundo E em cada estrela eu fecundo... motivos pro amanhã... Se jamais contarei todas ... sigo tentando... e tentando... Pois continuo sonhando com o céu de Aldebarã
E mesmo depois da noite, Sigo a D'alva... solitária Que talvez tenha ciúmes de alguma das Três Marias ... Talvez tenha se apartado, pra não contar seus queixumes ... E amanheça com os vagalumes, já procurando as macegas E vá boiando manheira Chamando tropa e tropeiro Só pra servir de candeeiro Pra quem contou as estrelas!