A Poeira do Meu Chapéu
Estes dias me pediram, Se me faltava capricho, Ou se era tanto o serviço E nunca sobrava um tempo, Se era algum juramento Deixar assim na sujeira, Manchado pela poeira O meu chapéu pacholento.
Foi no bolicho do Gita, Onde a canha faz dum torto, Achar que é mais do que os outros E debochar sem ter dó. Engoli seco o nó, Do despeito atrevido. -Se o meu chapéu é puído Traz muita história no pó.
...- Lembrei dos meus vinte ano E das andanças que tive, Lá por Paso de Los Libres Já espalhava algum verso, Andejo, sem rumo certo, Desde que assim me conheço. Comprei sem olhar o preço Este Maidana, confesso!
E já enfiei na cabeça Como parte de mim mesmo, Pra vaguear o mundo a esmo Cantando o meu pago em flor, A poeira do corredor Tingia meu chapelão, Que era tal um camaleão Cambeando sempre de cor.
Volteava os campos maduros Aqui de cima da serra, No rigor que nunca erra O gelado do inverno, O maidana tal um cerno Topava uma manga fria, Que a aragem da Vacaria É um frio que parece eterno.
Nos verões, no Bom Jesus, Ia eu e mais uns outros, Passear a espora nuns potros, Por perícia e gineteada; E a cada corcoveada Que algum maroto estendia, Meu chapéu preto sorria Com “as duas ponta” tapeada.
Tropiei na costa dos Touro, Até onde chega o “Pelota”. Com o galhedo “das grota” Me surrando de laçasso, Mas o maidana machaço Feito de “piel” natural, Era a armadura rural Contra intempérie e mormaço.
Acostumou com o tempero Do barro pelas mangueiras... Num pealo em festa campeira Foi que ganhou a riscada, Numa bruta descorneada, Dum pegotaço de guampa, Ficou o causo na estampa, Da aba cicatrizada.
Na hora da oração, Se acomodou no meu peito, Por devoção e respeito, Ao santo Deus que apadrinha, Pois dessa vida mesquinha O homem tira o chapéu, Pedindo as bênçãos do céu E olhando pro fim da linha.
Mas lá numa pitangueira No carreiro da restinga, Eu esperei minha gringa, Abri o peito à capela, Olhei bem no zóio dela Com meu chapéu pela mão, Levei o meu coração Querendo entregar pra ela.
...Pelos galpões e bolichos, Por ranchos e comitivas, Por rincões que a pátria viva Pariu e chamou de campo, Eu vagueio e me acampo Com o meu velho sombreiro, Confidente e companheiro De tudo aquilo que canto.
Por isso deixo o recado, Logo esta prosa se encerra, Meu é verso feito da terra, Que sai do chão para o céu. Caminho entre o mundaréu, Quando a poeira me despacha, Quem me procura, me acha, Debaixo do meu chapéu.