O Laço do “Quage” Morto
Recebi como regalo um laço do “Quage Morto”, trança de seis, como poucos, l’e vi assim tão parelho. No porte, bem a preceito, pr’um dia de pealação... fui balanceando na mão sentindo peso e argola, me imaginando pachola largando só de tirão.
Levei no más, de bom grado, não precisou muita sova, já tava de cara nova depois de bem arrastado. Em voltas, enrodilhado, botei deitar no galpão, que o laço dorme no chão pra sentir cheiro de terra, mas quando o serviço berra, se acorda de prontidão.
..., mas na chacrinha singela, são menores as divisas, muito pouco se precisa de algum arrojo mais forte... me considero de sorte, não menosprezo esse luxo, que neste tempo, de bruxo, vou respeitando o sofreno, e um campo, mesmo pequeno, conforta bem um gaúcho.
Meia dúzia de vaquinha, as ovelhas, gato e cusco... e pouco, bem pouco o susto de me sentir menos guapo. - Caso precise, eu destapo um armadão fachudaço e busco longe, enlaço, que’ste braço tem recurso! - Esse era o meu discurso, enquanto olhava pro laço.
Não vou dizer que não teve, lacei um boizinho preto, que se escapou, por “sotreto”, do invernadão do vizinho; noutra feita, fui sozinho, por gauchada e proeza, provei na cincha a presteza do meu tordilho, um soldado, e lacei um touro emprestado, que vinha mal da tristeza.
O tal tordilho, que falo, é campero e bonachão, mas na folga um gavião, de me fazer um cortado... levei meu laço armado, dei um tiro, por supuesto, num voo, sem ter pretexto, peguei da goela o fujão, e o laço, n’outra função virou buçal e cabresto.
Nada de muita exigência pro laço do “Quage Morto”! Puxei um terneiro torto, que nasceu dando trabalho... por fula lacei, de talho, uma jersey amojada... levei uma cusca atada, que apareceu bolapé... e boleei o laço de’a pé treinando vaca parada.
“Às vez” anda ressequido, meio torto, cara feia, tão emburrado sesteia com saudade do meu punho. Mas ele é o testemunho deste meu mundo mais lerdo, do saudosismo liberto, nas gauchadas que falo, no que eu já fiz de’a cavalo e hoje não tenho por perto.
Confesso, sou resmungão, faço que tenho e preciso, guardo os arreios tão vivos, um pelotão pra guerrilha! ...ah se eu tivesse a tropilha! ...ah se eu tivesse a lonjura! No descampado, a planura, vida que cruza e apronta, igual a tropa na ronda, que estoura na noite escura.
No laço do “Quage Morto” eu reencontro o trançador, magrelão, conversador, que faz jus ao apelido, um gauchaço sofrido, que trança por circunstância. Mas me perco na importância de ver perdendo o espaço, de que adiantam novos laços? Muitos mofam nas estâncias.
No laço do “Quage Morto”, eu pensei, sem destemor, em gastar o tirador, pealando nestas festanças... nenhum convite, lembrança, fiquei na moita, na espera. Será que esqueceram o qüera? Será que ninguém mais capa? Será que tudo se escapa De apenas ser como era?