O Sonho de Cada Um
Aqui o galpão ressona numa fumaça branquita bocejando desenganos, campeiros refazem planos sorvendo algum “pura folha” pra ir terciando as escolhas, rumos, sonhos… amargueando…
Gaúcho, sim, - Buenos dias! ...ou outro “buenas” qualquer, dependendo da querência. Nesta mística cadência, num gole bruto e amargo, qualquer lugar se faz pago tendo na alma -essência-...
Daqui a pouco o meu tordilho vai me carregar no lombo rumando algum campo aberto. E quantos mais hão, por certo, também compor um embate, depois de lavar o mate um homem se faz liberto…
E podem sair de casa, rumbeando o mundo que for, com ânsias de desafio; podem cruzar mar e rio; cordilheiras e florestas; levando a terrunha gesta do povo que lhes pariu…
Eu sou bem mais campeiro, cada vez que alço a perna e me bandeio a lá cria… sonho o sonho, todo dia, de ser mais do que fui ontem, mas sempre bebendo a fonte da pureza que me guia.
Mas o mundaréu, gigante, aquerenciou tanta gente de gaúcho sentimento. Calculo, por pensamento, quanto sonho criou asa, e viu que sair das casas é buscar novo sustento.
Gaúcho é sempre gaúcho, longe ou perto deste chão… mas tem no peito um borralho, com labaredas e atalhos, reunindo gente e histórias, com a lagrima da memória riscando o rosto num talho.
E o que dizer do meu verso, que sonha em ser viramundo na boca da multidão. Romper linha e divisão, ecoar a todo plano o canto de um campechano, que fala com voz de chão.
E o sonho de cada um hay de cruzar continentes… Na Ibéria, além mar; na América a chimarrear; que gire o globo, onde for, se o gaúcho destemor, sempre foi: - pelear …pelear!
... quem sabe um dia eu escute meu verso crioulo e macho, pulsando junto do sangue do viageiro distante, que anda rompendo fronteiras, mas que carrega a bandeira deste querido Rio Grande.
E o sonho de rédea frouxa Vai tranqueando despacito conforme a realidade, não tem hora, nem idade, impossível ou comum, o sonho é de cada um, só depende da coragem!
- Independente onde estejas, com a erva e o porongo apertados junto a mão, encontres no chimarrão o teu povo, a tua gente, e este amargo que sentes, jamais seja solidão.