Gaúcho
Surgiu lá por Dom Pedrito Num trote manso do pingo, Com uma proza tipo gringo, Em vestimenta povoeira Não tinha lenço ou bandeira, Nem filiação nesse mundo, Mas um olhar mais profundo Do que moeirão de tronqueira
Para arrancar-lhe um sorriso Não era qualquer brinquedo, Nem mesmo ao chinaredo, Abria a estampa encardida. Talvez rigores que a lida Pouco a pouco acolherou, Ou um sonho que entortou Pelas golpeadas da vida
Causou mesmo alvoroço Chegando aqui na querência. A indiada, por experiência, Até confiar, desconfia... Vai ver é um sem serventia, Ou bandido e procurado Veiaquiando pra “esses lado”, Pra depois sumir a lá cria...
Mas ninguém veio no encalço Foi ficando aqui no povoado, E já de pronto apelidado De gringo, pela peonada. Pegou confiança da indiada, Não refugando a serviço, Mais manso do que petiço Montado por gurizada
Pras bandas do Ponche Verde Sempre pilchado a preceito Um lenço branco no peito, E mais gaúcho a cada dia, Laçando ele até parecia, Naquela armada canhota Que numa vida remota O ofício já conhecia
Não refugava o mais malo Pra ginetear campo afora. E lhe vestiu bem a espora Como ao galo do terreiro. Era um cacique guerreiro Que no corcovo aporreado Nos remetia ao passado Desse velho chão fronteiro
Nas precisões por peleia, Se entonava sem alarde. Ser manso não é ser covarde Nem desaforo é pra macho. Não o tirem por capacho, Dizia o pulpeiro, pachola: Pelear às vezes consola Índio assim criado guacho
Um dia puxou do pinho Pra acompanhar a cordeona. Passeou da prima a bordona. Já comandando o escarcel, Saltou de pronto um tropel, De milonga atropelando, Que ele amansava ponteando Com os dedos de Dom Yanel
Numa manhã de invernia Já muito cedo de ponta, De mala e de ideia pronta, Despediu-se com decência. Todos sentiram a ausência. Mas não segue disciplinas Quem carrega nas retinas Uma sede de querência
E nunca mais deu notícias, Nem se soube o paradeiro Daquele gringo campeiro Que falava por decreto. Hoje avô conta pra neto Das proezas do passado, Do forasteiro do povoado, Gaúcho mais que completo
Mas não sabe aquela gente, Que o guapo forasteiro, Era a alma de um campeiro Reencarnada sem retovo. E nas ânsias por seu povo, Por uma fresta do plano, Voltou naquele paisano Pra ser gaúcho..... de novo.