A Ressurreição do Zeca Rosado
Das artes, a mais medonha Que o Zeca Rosado aprontou De morto ele se parou Lá num canto do galpão E pediu pra algum irmão Avisar lá na cozinha. Então foi Mariazinha Contar pra Dona Luíza Se chegou, meio indecisa, Até tremia, a pobrezinha.
“Credo, guria, o que houve, O que foi que aconteceu?” “O Zeca, mãe, o Zeca morreu Tá no galpão, estirado, Não sei de que jeito, coitado, Bateu as botas, partiu...” Dona Luíza assentiu Disse, de modo risório: “Já vou fazer o velório, Desse guri alarife Vou até comprar esquife Pra sepultar o notório.”
Mas por que o tal do Zeca Foi se fazer de finado? O que ele tinha aprontado? Como foi a pataquada? Já lhes conto a gauchada Famosa entre os Rosado.
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Era verão no Carovi Distrito de Santiago, Quando depois do amargo Luíza chamou o filho. Mandou pegar o tordilho E ir buscar lá no povo Um par de tamanco novo, Um bico de mamadeira, Tabuleta pra terneira, Café, feijão, tempero, Querosene pro candieiro E remédio para o gado Que o pai tinha encomendado No Bolichão do Palmeiro.
Num instante o piá se foi Em direção ao povoeiro, Satisfeito e faceiro, No Raposa, enforquilhado. O guri era botado E como gostava de estrada Duas léguas foram nada Costeando os espinilhos, Sem desviar do seu trilho No pingo de cola atada.
Na venda do Seu Palmeiro A demora foi bem pouca; Pro flete logo deu boca C´as encomendas na mala E um punhado de bala Na algibeira da bombacha. Se foi, em serena marcha, Em direção ao ranchito, Assobiando um chotezito Que há tempo tinha escutado, Um tanto desafinado, Mas achando bem bonito.
Foi numa curva da estrada Que a lambança começou. Zeca Rosado encontrou Nicolau Flores Bandeira, Parceiro de brincadeiras, Que vinha do outro lado, Como sempre, entonado, Na sua égua Cruzeira.
Mal deu tempo dos “bom dia” E o Nico fez a proposta De fazerem nova aposta Entre o tordilho e a bragada A cancha seria estrada, O branquilho, partidor, E seria o vencedor Com direito a dois cruzeiros Quem passasse por primeiro No angico do Nicanor.
Zeca soltou uma risada E afirmou, divertido: "Tu deves ter esquecido Da carreira de domingo, Quando ganhei com meu pingo De ti e desta matunga. Eu vou te dar outra tunda, Vou te vencer novamente, Pode até sair na frente Que ganho de fiador, Vou te mostrar o valor Do meu cavalo valente".
Um, dois, três e lá se foram Naquela carreira baguala, Mas Zeca olvidou-se da mala, Que foi ao chão com um tranco. Se foi o par de tamanco, O bico de mamadeira, Tabuleta pra terneira, Café, feijão, tempero, Querosene pro candieiro E remédio para o gado Que há pouco tinha buscado No Bolichão do Palmeiro.
Pelo angico do Nicanor Zeca passou bem na frente. E esperou, sorridente, Pra receber seus cruzeiros. Seguiu na estrada, faceiro, Com o Nico, abichornado, Despacito, ao seu lado, Montado na égua Cruzeira, Batido em outra carreira Pelo guri dos Rosado.
Quando chegou na cancela O Zeca então se deu conta: Havia perdido as compras Que o pai encomendou. O Raposa, sofrenou, Pegou de novo a estrada, Campeou, mas não achou nada... Refez o caminho inteiro Até chegar no Palmeiro Imaginando a reprimenda. Entrou, outra vez, na venda E perguntou, envergonhado, Se alguém tinha encontrado A mala com as encomendas.
Mas ninguém tinha achado No bolicho ou na estrada, Ninguém sabia de nada... A não ser um dos lindeiros, Que viu o piá arteiro, Quando jogava carreira Com o mais novo dos Bandeira Deixar cair do tordilho Lá bem junto do branquilho. E por ser muito cortês Entregou de uma só vez A mala e arte do filho.
Zeca foi, de orelha murcha, Pros lados do Carovi, Imaginando, o guri, Que, braba como quatiara, Sua mãe pegaria a vara De chorão ou pessegueiro O tempo ficaria feio E o seu lombo, inchado, Nas mãos de Luiza Rosado Naquele fim de janeiro.
"Melhor seria morrer" Pensou Zeca, acabrunhado, E teve ideia, o danado, De se deitar no galpão. E pedir pra algum irmão Avisar lá na cozinha. Então foi Mariazinha Contar pra Dona Luíza Se chegou, meio indecisa Até tremia, pobrezinha.
O guri estava certo: A mãe era uma quatiara. Deu de mão numa taquara E a Maria levou junto, Estava de pouco assunto Naquele dia nublado, Chegou devolvendo recado Não tava pra brincadeira. Sem defunto nem rezadeira O galpão vazio ficou, Pois Zeca ressuscitou Com um chá de taquareira.