Os Olhos da Infância
Os olhos da infância Bombeiam distâncias Pra além das cancelas E erguem castelos Das pardas paredes De antigas taperas.
Em toscas taquaras Enxergam pelagens De fletes de guerra E sobre seus lombos Se lançam, valentes, Em brutas refregas.
As mãos pequeninas Empunham espadas De galhos de angico; Em cargas heróicas Enfrentam sabiás, Pardais, tico-ticos.
Os olhos da infância Desenham figuras Nas nuvens do céu: Nhandús, jacarés, A cuia do mate, Um poncho, um chapéu.
Nos dias de vento Inventam milongas Nos fios do alambrado E à beira do açude Compõem melodias Pra um coro de sapos.
Namoram as flores Que enfeitam de cores O verde do campo E morrem de amores Pensando em cambichos Nas portas dos ranchos.
Os olhos da infância Têm medo da noite E as sombras que traz: As almas penadas, Talvez, lobisomens, Sacis, boi-tatás.
Em volta do fogo Se fixam, atentos, Nos causos que escutam, A bruxa-princesa Que vive escondida Nos fundos da gruta;
O velho sobrado Que um dia foi palco De revoluções E esconde em seus cantos Pedaços de história E assombrações.
Descobrem poemas Nos fatos mais simples, Nos mínimos gestos; E voam sem asas Sonhando acordados De olhos abertos.
Os olhos da infância Vislumbram a beleza Das coisas singelas Por isso as crianças Em sua pureza São todas poetas.
Porém, quando crescem, Os olhos da infância Se tornam tristonhos: Esvai-se a poesia, Acorda a ilusão, Desfazem-se os sonhos.
Aos olhos adultos Castelos são poeira Que o vento desmancha; E, além das cancelas, O campo é o limite Que a vista alcança.
As guerras são outras E já não existem Heróis de a cavalo E a fantasia É um flete que poucos Conseguem montá-lo.
Os olhos adultos Não sabem, por brutos, Que a alma envelhece E enxergam apenas A imagem precisa Que o espelho reflete.
Não sabem, por certo, Que há um mundo invisível Por trás dos espelhos, Somente olhos puros - De infância e poesia - É que podem vê-los.
Será que a poesia Também envelhece? Ou só adormece Num sono profundo E fica esquecida Quando a gente cresce?
Que lindo se um dia Desperte a poesia Dormida em criança! E então nossos olhos Enxerguem o mundo Com olhos de infância.