Diálogo de Vida e Morte
A vida floresce quando um Deusa despetala Em um bem-me-quer de cor tão cálida Que se abre inteira na mais terna primavera; É feito a borboleta que, depois de tanta espera, Abandona o seu exílio na transmuta da crisálida.
A morte é o tempo, em cara-volta, e adeus! É feito língua que da chama inflama o fogo; Que engole o campo a romper-lhe mil feridas. É a regra exata a ser cumprida pelo jogo Que apaga a saga de quem já viveu a vida.
A vida explode num festim de luzes tantas Quando a mãe chora tendo ao peito sua criança, Rompendo o elo em que há meses reflutua; Há um Inquilino em seu ventre, feito lua, Que se avoluma de amor e de esperança.
A morte afronta e coleciona suas cruzes; Vizinha do velho, do silêncio e do pó. Se regozija quando alguém de medo berra, Afiando garras, provocando o mal da guerra, E,sorrateira, nos aperta o último nó.
A vidapulsa quando os olhos, puro brilho, Florescem pra expulsar quaisquer perigos! É quando o medo abaixa a crista para a calma, E a vida inventa uma família só de alma: Em vez de irmão - a gente chama de amigo.
E a salivar os seuscaninos,vai a morte Feito besta desvairada em seus delírios, Desesperada pra sangrar predestinados Lançademônios pra cumprir o seu mandado De semear suas maleitas e martírios.
A vida se batiza denomes tãodiferentes, Também está na gente sem saber o que ela é. É o impossível revelado frente aos olhos Por um milagre que acomoda-se nocolo Pra ser vida travestida nominada como fé.
A morte goza no ceifar da negra foice, Planta a desgraça nos desígnios do ofício; É a carcaça do sobejo de um faminto, É quando a vida se perdeu no labirinto E se atira do terraço do edifício.
A vida é sonho que sequer tem um roteiro; Duas metades a formarem um inteiro, assim. O amor rebrota, pela benção das auroras, Quando o céu vomita bombas lá por fora, Um par se ama, desprezando o próprio fim.
A morte é a sede que resseca e racha o lábio, Que faz do corpo uma ruína para o verme. O céu recebe uma legião de vis abutres, Que pelo resto se enfarta e que se nutre No desencanto de quem já perdeu o cerne.
A vida fala pela pele que, tão logo, se arrepia Quando o túnel engole o trem da despedida; Mas que, por certo, no regresso traz de volta, E uma gota inunda a ruga, depois solta Pelo gesto que adoça no sabor de mel da vida.
A morte mingua um espirito sem lume, Afiando o gume pelo câncer que carcome. É o terror que de manchete se reveste, É a devora da insolência de uma peste, feito um corvo a rondar quem sofre a fome.
A vida plena para além da metafísica, Não se limita nos critérios da matéria. É um mundo dentro d’um outro mundo, É a alegria que a nós, em um segundo, Faz pulsar o rio caudal de cada artéria.
A morte, ungida pela treva de seu nome, Nos consome a cada dia em sua vileza; É um espetáculo sombrio frente a uma prece Daquele que,expirando, aindaesquece Que morrer é a mais clara das certezas.
É uma dança, uma aliança uma ciranda que se versa. Uma conversa, um jogral, É o real e o eterno.
....A vida é o calor de mil verões, A morte é a frieza dos invernos...
O início pelo choro, uma estrela, O fim pela lágrima, uma cruz. O elo que nos faz ser sempre forte: Um ciclo que do berço ao campo santo São duas datas justapostas pelo pranto, Num diálogo de vida e de morte, Num diálogo de sombra e de luz.